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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

LARANJA MECÂNICA - 1971


Título Original: "A Clockwork Orange"
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, baseado em livro de Anthony Burgess.
Produção: Stanley Kubrick
Gênero: Ficção Científica
País: Inglaterra/Estados Unidos
Ano de Lançamento (Inglaterra): 1971
Música: Wendy,Carlos.
Direção de Fotografia: John Alcott.
Figurino: Milena Canonero.
http://www.imdb.com/title/tt0066921/ - 8.5/10


Sinopse:

Numa sociedade do futuro, Alex (Malcolm McDowell), líder de uma gangue de delinqüentes que matam, roubam e estupram, cai nas mãos da polícia. Preso, ele é usado em um experimento destinado a refrear os impulsos destrutivos, através de uma lavagem cerebral mas acaba se tornando impotente para lidar com a violência que o cerca.


Elenco

Malcolm McDowell (Alex DeLarge)
Patrick Magee (Frank Alexander)
Michael Bates (Chefe Barnes)
Warren Clarke (Dim)
Adrienne Corri (Sra. Alexander)
Carl Duering (Dr. Brodsky)
Paul Farrell (Tramp)
Clive Francis (Lodger)
Michael Glover (Diretor do presídio)
James Marcus (Georgie)
Aubrey Morris (P.R. Deltoid)
Godfrey Quigley (Chaplain)


Premiações:

- Recebeu 4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição.
- Recebeu 3 indicações ao Globo de Ouro: Melhor Filme em Drama, Melhor Diretor e Melhor Ator em Drama (Malcolm McDowell).
- Recebeu 7 indicações ao Bafta: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora
- Recebeu 2 indicações ao NYFCC (EUA): Melhor Filme e Melhor Diretor


Curiosidades:

- Stanley Kubrick certa vez declarou que, se não pudesse contar com Malcolm McDowell, provavelmente não teria feito Laranja Mecânica.
- O orçamento total do filme foi de apenas US$ 2 milhões.
- No livro, o sobrenome de Alex em momento algum é revelado. Comenta-se que DeLarge seja uma referência a um momento no livro em que Alex chama a si mesmo de "Alexander the Large".
- Basil, a cobra, foi colocada nas filmagens após o diretor Stanley Kubrick descobrir que Malcolm McDowell tinha medo delas.
- O livro em que Frank Alexander trabalhava quando Alex e sua gangue invade sua casa chamava-se "A clockwork orange".
- Stanley Kubrick propositalmente cometeu alguns erros de continuidade em Laranja Mecânica. Os pratos em cima da mesa trocam de posição e o nível de vinho nas garrafas muda em diversas tomadas, com a intenção de causar desorientação ao espectador.
- O filme foi retirado de cartaz no Reino Unido a mando de Stanley Kubrick. Irritado com as críticas recebidas, de que Laranja Mecânica seria muito violento, Kubrick declarou que o filme apenas seria exibido lá após sua morte.
- A linguagem utilizada por Alex foi inventada pelo autor Anthony Burgess, que misturou palavras em inglês, em russo e gírias.



Stanley Kubrick considerava “Laranja mecânica” seu melhor filme. A imagem e a violência são os temas centrais, sempre tratadas com ironia e sarcasmo.
Os cenários, locações, figurinos, atores, a fotografia e a música foram utilizadas com maestria por Kubrick para criar um ambiente caótico e sombrio de uma sociedade futurista, onde gangues se enfrentam e vandalizam a cidade, usando alucinógenos, espancando mendigos e violentando mulheres, entre outros desatinos.
A linguagem tem grande importância, e o vocabulário utilizado pelas gangues é derivado de expressões que só eles entendem, mas o espectador acaba assimilando também.

A mente visionário do diretor permitiu a criação dessa metáfora ao tipo de cultura na qual ele previu que viveríamos, onde grande parte da informação que obtemos nos chega através do nosso campo visual. Explorando isso no figurino dos atores, pouco convencionais, nos móveis arredondados, a figura feminina utilizada como ornamentação, o uso de plástico, materiais sintéticos e cores vivas.
Além disso, há o comportamento dos jovens que não encontram mais nas instituições sociais mais tradicionais como família, escola e igreja uma boa referência que os instrua.
Ao contrário disso, não há senso humanitário, respeito a leis, tudo visa à própria diversão.

Laranja Mecânica não é um libelo contra ou mesmo a favor da violência. A trama do filme não se posiciona a este respeito, preferindo apenas mostrar que a violência á algo intrínseco ao ser humano e, por fazer parte de seus instintos básicos ligados a sobrevivência, não adianta reprimi-la.

Mas a trama não versa unicamente sobre a violência. Ao longo das mais de duas horas de produção, Kubrick encontra espaço para tocar em temas como a liberdade de cada pessoa dentro de uma sociedade ou mesmo a influência que o meio provoca sobre o indivíduo. Na primeira questão, Kubrick envereda por um assunto semelhante ao levantado pelo recente Minority Report: até que ponto pode-se ceder a liberdade em prol de um bem maior? Qual seria o limite? Em certo momento, um dos personagens afirma: “Quando um homem não pode escolher, deixa de ser homem”.

Desde a impecável cena inicial com Alex olhando fixamente para a câmera ao final aberto a interpretações, Laranja Mecânica parece ter sido concebido com muita calma e preciosismo. A impressão que fica é a de que cada plano – e, conseqüentemente, cada gesto dos atores e objetos colocados em cena – foi exaustivamente estudado, ponderando a participação dos mínimos detalhes que aparecem na tela. Kubrick tem a capacidade de tirar o máximo de cada tomada. É a forma completando o conteúdo.

Assim, Laranja Mecânica possui seqüências brilhantemente concebidas e executadas, trazendo imagens que já se tornaram icônicas. Imagens como a de Alex no tratamento Ludovico, com os olhos arregalados, ou o espancamento ao som de Singin’ in the Rain ou Beethoven se tornaram parte do imaginário da cultura ocidental.
A música, aliás, como é comum nas obras de Kubrick, é parte essencial de Laranja Mecânica. O cineasta é capaz de encontrar a sinergia perfeita entre imagem e som. Mais do que isso, em Laranja Mecânica a música ainda faz parte da história, uma vez que o personagem é devotado a Beethoven e fica proibido de escutar o mestre após passar pelo tratamento.

Sendo Laranja Mecânica um filme mais de história e forma do que de personagens, há pouco espaço para os atores brilharem. O único que recebe devido tempo em tela para isso é Malcolm McDowell, no papel de Alex, e ele encarna a oportunidade com grande devoção. Seu Alex passa pelos mais diversos estados de espírito e o ator transita entre as diversas mudanças com talento. Reparem na diferença entre o Alex do início do filme, o Alex da prisão e o Alex perdido, após a cena em que ele é recusado por seus pais quando volta para casa.

Polêmico (há uma cena em que o protagonista se imagina flagelando Cristo na cruz), Laranja Mecânica é um filme obrigatório de ser assistido. Certamente, nem todos irão gostar e menos irão entender tudo aquilo que Kubrick quis dizer com a obra. Esta, porém, é uma das grandes qualidades de Laranja Mecânica: além da técnica e da narrativa irrepreensíveis, o filme levanta muitas questões e é passível de múltiplas interpretações. Resta ao espectador tirar as suas.


Impacto

Lançado em 71, o filme logo caiu nas mãos da censura o que causou uma demora ao lançamento do filme, pois Kubrik não permitiu que nenhuma cena do filme fosse cortada. O filme foi proibido em vários países, no Brasil somente foi liberado em 78 pela Censura e era exibido com 'bolinhas pretas' para disfarçar a nudez. Na Europa, alguns cinemas o exibiam sob algum nome falso (como "Fruta Mecânica"), o que não impediu que algumas gangues promovessem verdadeiros quebra-quebras nas salas de exibição. Na Inglaterra o filme continua proibido.

Os jornais começaram a utilizar o termo "clockwork crime" para designar crimes violentos. Muitos hooligans eram vistos nos estádios de futebol vestidos com casacos brancos, botas pretas e chapéu-coco.

Na Inglaterra apareceram várias bandas que falavam de temas relacionados à história em suas músicas (Blitz, The Violators), e outras inclusive se vestiam como os drugues do filme (The Adicts, Major Accident), numa lista enorme publicada pelo NME (New Musical Express - Jornal inglês sobre música) de músicas ou grupos musicais que fizeram referência ao Laranja Mecânica constam ainda nomes como David Bowie e Blur.

Podemos encontrar referências ao filme inclusive no famosíssimo seriado animado de Matt Groening, os Simpsons, onde Bart aparece fantasiado de Alex na festa de Haloween, ou então quando eles tentam transformar seu cãozinho um animal violento, para isso usam a técnica Ludovico (a lobotomia a qual Alex é submetido na Prisão Estadual).


Vocabulário

A linguagem “nadsat” é utilizada pelos personagens mais jovens de Laranja Mecânica, nomeadamente o bando de Alex, e uma clara sátira ao costume de utilização de gírias próprias em grupos de adolescentes.

O resultado é uma preciosidade, saída da imaginação de Anthony Burgess, autor do livro, célebre pelos seus jogos de palavras, neologismos e universos dialéticos. Para criar a linguagem dos droogies de Alex, Burgess misturou o inglês com russo, e ainda um pouco de latim. Um precioso elemento da história original, que Stanley Kubrick não se coibiu de aproveitar para o filme.


Bolshy: grande
Bratchny: bastardo
Charlie: padre
Devotchka: rapariga
Droog (ou Droogie): amigo; colega;
Horrorshow: muito bom; excelente;
Litso: cara
Malchick: rapaz
Tolchock: verbo similar a bater
Peet: beber
In-and-out: sexo
Glooby: estúpido; burro; retardado;
Gulliver: cabeça
Mesto: local público onde há pessoas
Rozzy, Millicent: polícia
Veck: homem mais velho; velhote;
Vellocet: droga estimulante
Viddy: verbo similar a observar


Fonte: tópico postado em junho de 2006 na comunidade Cineminha, Orkut, pela brilhante Sofia Mantega “Wind Dancer”

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Texto publicado no site Direito Penal virtual

“A LARANJA MECÂNICA”: COMENTÁRIOS CRIMINOLÓGICOS SOBRE A VIOLÊNCIA JUVENIL - primeira parte

... pode-se escolher a vida – e desvalorizar seu aniquilamento – ou pode-se escolher a valorização do sistema (com o conseqüente negativismo ou indiferença pelo aniquilamento da vida humana e não humana), mas também pode-se escolher não pensar e, em semelhante alienação covarde, cair no desprezível otimismo irresponsável. Para nós, a decisão eticamente correta escolhe a valorização da vida, apesar da coragem de pensar.
(Eugenio Raúl Zaffaroni, Em busca das penas perdidas, p. 157)

O IDIOMA
Talvez a coisa mais fascinante sobre o livro (e o filme) seja o idioma.

Alex pensa e fala no "Nadsat" (adolescente em russo, em analogia temos “teen” do inglês. Também é a terminação das palavras russas que numeram os números de onze a dezenove).

No princípio, o vocabulário parece incompreensível: "You could peet it with vellocet or synthemesc or drencrom or one or two other veshches". (“Você podia peet isto com vellocet ou synthemesc ou drencrom ou um ou dois outros veshches"). Mesmo não se sabendo nenhuma palavra russa e parecendo, à primeira vista, indecifrável o significado, compreende-se a idéia ao se analisar o contexto da frase. Entretanto, há palavras que buscam ser inteligíveis mesmo em se observando o contexto: quando Alex chuta um integrante de uma gangue rival (Billyboy), caído no chão, ele diz que o chutou no "gulliver". A expressão poderia fazer referência a qualquer parte do corpo naquele contexto. Todavia, em outra cena, um copo de cerveja é servido com “gulliver”. E quando o mesmo se recusa a ir à escola fica claro que “gulliver” é dor de cabeça... De qualquer forma, a palavra pode ter sua origem remontada ao russo: “golova”, que significa “cabeça”.

Anthony Burgess não usou palavras russas sempre de forma mecânica. Há passagens que se utiliza do “Nadsat” com grande ingenuidade, como na palavra "gulliver" já referida. Outras palavras são brilhantemente arquitetadas: khorosho (bom ou bem) como "horrowshow"; iudi (pessoas) como "lewdies"; militsia (milícia ou polícia) como “millicents”.

A "conversa codificada” (melhor do que gíria) inclui a frase marcante de Alex “O my brothers" e palavras como "crark" (uivar?) e “cutter" (dinheiro). A linguagem tem um som maravilhoso, particularmente em abuso, quando "bratchny grahzny” soa infinitamente melhor do que "dirty bastard” (“bastardo sujo"), além do que é um ponto central para a nossa análise criminológica.





Onde encontrar: CINECOMBO

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