*** em construção ***



quinta-feira, 7 de outubro de 2010

CÉU E INFERNO - 1963


Em 1963, Céu e Inferno, um misto de policial e filme social, envolvia um crime de sequestro em que o raptor desejava arruinar o homem rico por invejar-lhe a alta posição.

A história em primeiro plano oculta sentidos mais profundos, com digressões sobre o capitalismo e a sua (falta de) moralidade. Embora menos pessimista que o noir Cão Danado, Céu e Inferno não renuncia às metáforas visuais, não simplifica o drama ético do protagonista e escapa pela tangente de cair na pieguice, ao apresentar o caráter multifacetado e árduo de muitas questões morais.

Mais uma vez com Mifune no elenco, um confiante Kurosawa não poupa sofisticação na construção audiovisual, numa narrativa policialesca repleta de sutilezas e detalhes técnicos, em que forma e conteúdo estimulam-se entre si.

A trilha sonora é uma atração à parte. Num determinado momento, crucial para a história, a música de fundo simplesmente é "It's Now or Never". Genial.

Mas nada nos prepara para o verdadeiro tour de force que é a travessia empreendida pelo inferno: o submundo, as boates, as zonas, nada é poupado na perseguição que a polícia faz junto ao seqüestrador após este ter sua identidade desmascarada.



Título Original: Tengoku to jigoku
Título em inglês: High and Low
Direção: Akira Kurosawa
Produção: Ryuzo Kikushima, Akira Kurosawa, Tomoyuki Tanaka
Roteiro: Hideo Oguni, Ryûzô Kikushima, Eijirô Hisaita, Akira Kurosawa, baseado na novela de Ed McBain (Evan Hunter) "Kingu no minoshirokin"
Gênero: Policial/Drama/Suspense
Origem: Japão
Ano: 1963
Música: Masaru Satô
Fotografia: Asakazu Nakai, Takao Saitô
http://www.imdb.com/title/tt0057565/ - 8.2/10


Sinopse:

O filme conta a história de um executivo de uma fábrica de sapatos, Kingo Gondo, que está numa situação crítica. Ele está para investir uma grande verba em seus negócios quando descobre que seu filho foi raptado. O sequestrador exige uma quantia exorbitante como resgate, e pagá-lo levará Gondo à falência, porém acontece algo inesperado.

Em Céu e Inferno, baseado em uma novela policial norte-americana de Ed McBain, Kurosawa analisa o mundo capitalista japonês e as diferenças sociais, mostrando os contrastes entre a burguesia e a miséria. Foi indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza em 1963 e ao Prêmio Samuel Goldwyn no Globo de Ouro em 1964.


Elenco:

Toshirô Mifune - Kingo Gondo
Tatsuya Nakadai - Detetive-chefe Tokura
Tsutomu Yamazaki - Ginjirô Takeuchi
Kyôko Kagawa - Reiko Gondo
Tatsuya Mihashi - Kawanishi, secretário/assistente do Gondo
Isao Kimura - Detetive Arai
Kenjiro Ishiyama - Detetive-chefe 'Bos'n' Taguchi
Takeshi Katô - Detetive Nakao
Takashi Shimura - Chefe da seção de investigações
Jun Tazaki - Kamiya, Diretor de Publicidade da National Shoes
Nobuo Nakamura - Ishimaru, Diretor de Design da National Shoes
Yûnosuke Itô - Baba, Diretor Executivo da National Shoes
Yutaka Sada - Aoki, o motorista
Masahiko Shimazu - Shinichi Aoki, filho do motorista
Toshio Egi - Jun Gondo, filho do Gondo



Eis mais um (como todos) Kurosawa maior, com seqüências antológicas como o pagamento do resgate no trem bala em movimento, cenas maravilhosas como o balanço das providências na grande reunião dos especialistas da Polícia, a compra de heroína no dancing bar, entre outras preciosidades. Filme atualíssimo que aborda a nação que tenta ficar firme para enfrentar o esgarçamento social, a divisão das personalidades em conflito permanente, o caos urbano provocado pela sociedade de classes. – Nei Duclós, Consciência.org


Céu e Inferno é um baita filme.
A primeira parte da história é ambientada no universo do pai do sequestrado (Mifune), rico empresário, que mora numa casa ampla, localizada sobre uma montanha (céu).
A segunda, Kurosawa desce sua câmera para o submundo, para as ruas onde a vida segue como é na realidade, e onde vamos conhecer o sequestrador (inferno).
São quase dois filmes em um. Há uma longa sequência de perseguição, em que os policiais estão dentro de um trem e o sequestrador combina de deixar um recado ou alguma pista sobre as condições do garoto sequestrado. A cena é espetacularmente bem filmada! Céu e Inferno é imperdível mesmo. – Régis, leitor

O filme é excelente, uma obra-prima. Além de ser a melhor história de investigação que já vi.
A história é simples. A primeira parte acontece em uma casa bem luxuosa, que fica no alto de um morro (Céu) e a segunda parte no meio da cidade (Inferno). Gondo está feliz porque conseguiu arrumar uma maneira de ficar com a maior parte das ações da empresa onde trabalha. Tudo parecia perfeito mas ele recebe um telefonema. Um homem diz que sequestrou o seu filho, porem minutos depois seu filho retorna, e na verdade, quem foi sequestrado foi um amigo dele, filho do seu chofer. De qualquer forma o sequestrador obriga Gondo a pagar o resgate. Se Gondo pagar está falido. Se não pagar o garoto está morto.
Depois de refletir bastante, Gondo resolve obedecer ao sequestrador e dá o dinheiro. A partir dai começa uma incrivel investigação para descobrir quem é o sequestrador. Sabe aquele tipo de filme que você não consegue piscar o olho? É exatamente isso que acontece. – Bruno W., leitor



Céu e Inferno é um filme sobre cinema: a investigação de um crime de seqüestro é a leitura de imagens e sons. As pistas audiovisuais fecham o cerco sobre o criminoso, que consegue o resgate porque enxerga mais: pelo telescópio, segue todos os passos da sua vítima, o executivo que exibe poder e fortuna na grande janela envidraçada da sua mansão, a cavaleiro sobre a favela. Mas o olhar individual do sequestrador não vence o olhar coletivo, da sociedade e instituições mobilizadas para descobri-lo. É desmascarado por meio dos ruídos que deixa gravados nos seus telefonemas de chantagem, da voz que denuncia sua pouca idade, das opções que acabam entregando a localização do seu esconderijo. Da mesma forma que a polícia no encalço do bandido, o espectador também precisa palmilhar essa busca da agulha no palheiro vendo o que Kurosawa tece com maestria.
(...) Sabe aquele gesto típico japonês de pessoas que se curvam diante dos outros, em sinal de respeito? É o que todos devem fazer em direção a Kurosawa. Assim que devemos nos comportar diante do Mestre. – Nei Duclós, Consciência.org



Kurosawa sempre foi acusado, no Japão, de ser ‘ocidentalizado’. Era outra época, o mundo ainda não estava globalizado e Kurosawa adaptava Shakespeare, Dostoievski e Gorki. Acho que só quando ele morreu os críticos se deram conta, nos necrológios, de que Kurosawa havia sido o grande mestre do paradoxo e do movimento. Em Céu e Inferno, ele se baseou num relato policial do americano Ed McBain, sobre empresário que pensa que o filho foi seqüestrado, mas foi o filho do seu motorista. E, agora, ele paga o resgate? Se pagar, estará arruinado; se não pagar, como seguirá vivendo, já que é um homem ético? Como em Yojimbo e Sanjuro, Kurosawa opõe Mifune e Nakadai, dois monstros da arte da representação.
Céu e Inferno recebeu em inglês o título de High and Low. Coppola deve ter visto Céu e Inferno antes de fazer O Selvagem da Motocicleta. Scorsese é louco pelo filme. Anos atrás, chegou a pensar num remake. Walter Salles foi cogitado para a direção. Com todo respeito por Walter, ainda bem que ele não foi adiante. Seria difícil conseguir fazer algo melhor do que Kurosawa, com sua riqueza de mise-en-scène conseguiu naquele thriller 100% cult. - Luiz Carlos Merten, Estadão



Onde encontrar: DON'T PANIC

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