*** em construção ***



quinta-feira, 7 de outubro de 2010

EUPHORIA - 2006


"um poema audiovisual que tem como protagonista as estepes siberianas"

Euphoria trata do adultério numa história que se adivinha trágica desde o seu início. História nefasta, simples e poética.

Um homem que se apaixona por uma mulher casada com um ex-alcoólatra, e um acidente com a filha do casal estremece a relação conjugal. Um vilarejo inóspito (razão para o diretor usar e abusar da natureza), sem telefone, casas remendadas, horas de distancia da civilização. Vidas sem perspectiva, quase impossível imaginar como se vive naquelas condições.

O filme é riquíssimo em detalhes fazendo da história uma alegoria da necessidade de atender ao sentimento de euforia que às vezes nos toma para cometer atos impensados. Pode, quem sabe, ser resumido metaforicamente em sua primeira cena, antes dos 3 minutos.

Euphoria é um filme muito expressivo do ponto de vista cinematográfico. Com sua história simples, manifesta-se através de belíssimas tomadas e da utilização de elementos simbólicos da natureza, onde a combinação de lindas paisagens e música constante e sublime se destaca. A mise-en-scène de Vyrypayev e a cinematografia de Andrey Naidenov são de uma beleza indescritível. Visualmente o filme é arrebatador, belo e magnífico com todos os planos e os travellings que o russo cria. Sensorial acima de tudo.

Uma obra com tanto de deslumbrante quanto de surpreendente. Uma experiência lírica, trágica e absolutamente fascinante.


Título Original: Eyforiya
Título em inglês: Euphoria
Direção: Ivan Vyrypayev
Produção: Giya Lordkipanidze, Aleksandr Shein
Roteiro: Ivan Vyrypayev
Gênero: Drama/Romance
Origem: Rússia
Ano: 2006
Música: Aidar Gainullin
Fotografia: Andrei Naidenov
http://www.imdb.com/title/tt0847877/ - 6.7/10

Sinopse:

Em alguma região inóspita da Rússia, Vera e Pasha trocam olhares em uma festa de casamento. Vera é casada e tem uma filha pequena, o que não impede Pasha de procurá-la para esclarecer por qual motivo trocaram olhares naquele dia.

Um dos indicados para o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2006, Euphoria, primeiro trabalho de Ivan Vyrypayev para o cinema, acabou recebendo o “Little Golden Lion”. Vyrypayev, bem conhecido como diretor teatral, é autor da peça “Oxygen”, encenada em mais de 20 países.


Elenco:

Polina Agureyeva - Vera
Maksim Ushakov - Pasha
Mikhail Okunev - Valeri
Yaroslavna Serova - Masha
Vitali Romanyuk – menino da vizinhança
Vyacheslav Kokorin - Mitrich
Zoya Zadorozhnaya - Grandma Nadya
Maksim Litovchenko - Andryukha
Madlen Dzhabrailova - Mida
Evgeniya Dmitrieva - Galya
Olga Balandina - Lenka
Tatyana Ufimtseva - Lyuba
Aleksandr Suchkov - Grigori
Yegor Golovenkin - Sanya
Aleksandr Shein - Mishka


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por Valter A. Rodrigues em julho 2010 - usinagrupodetudos

ISSO QUE ME OLHA

[...] a gente não gostava de explicar as imagens porque explicar afasta as falas da imaginação (Manoel de Barros)

Um

Um homem procura uma mulher pelas estepes siberianas, recusando todas as recomendações de seu amigo quanto ao risco de sua empreitada. Sim, a mulher é casada, sim, tem uma filha, sim, sim, o marido é ciumento, esse encontro que ele busca, que o obceca, pode matá-lo. Mas não há apelo à razão que possa deslocá-lo de seu movimento e sua fissura. É preciso, é urgente falar com ela. Sua aflição o arrasta, carrega o que quer que encontre em seu caminho, as dores, as ânsias, os olhos, ah, sim, todos os olhos que buscam capturá-lo, pará-lo por um instante que seja, reconhecê-lo no que o move.
Seu movimento, que ignora qualquer barreira, encontra outros movimentos, outras ânsias, outras perambulações. Movimentos que entretanto não lhe dão continência. A mulher, um ponto vermelho na paisagem dourada, um ponto que o ignora e que ele busca, está lá, não exatamente à espera, mas visível sob a luz intensa que a faz emergir única, singular, como pólo irresistível de atração. O que os separa, uma brecha, uma fissura no terreno, marcando o lugar de onde ele fala, interpela, demanda, e o da mulher e a filha que ela chama, sustentando-se numa quase indiferença que o incita, que o provoca. Um corpo que existe à sua revelia, embora só tenha existência porque, de seu lugar, de seu desejo, ele o olha e o interpela. E esta é a questão que ele lança, insistente: estivemos juntos numa festa, lembra-se?, e você me olhou. E agora, o que fazer com isso? O que fazer disso, desse acontecimento singular, desse encontro de olhares? O que fazer dessa captura? A pergunta ansiosa do homem encontra a plácida resposta da mulher que ao mesmo tempo o evita e o atrai: não sei...

Dois

A escola descobre o cinema. Essa descoberta assume várias formas. A mais comum e prosaica é o uso do cinema como dispositivo temático. Exibe-se um filme como suporte para algo que se pretende apresentar aos alunos. São abundantes hoje as indicações de filmes para se trabalhar isto ou aquilo a partir de seu conteúdo. Trabalha-se, assim, saúde, história, geografia, ecologia, ética, relações humanas com o recurso aos exemplos. Este é um uso moral do cinema, pois ele supõe sempre a existência de um modelo, de uma referência pré-dada em relação ao qual algum ajuste se propõe, tendo como resultado esperado e final uma compreensão do tema proposto. O filme como narrativa, como texto, está em segundo plano ou nem sequer é considerado.

Três

Todos os filmes são histórias de amor, diz Wim Wenders em O estado das coisas. E a relação primeira com o cinema é de paixão. O encontro com a tela e suas imagens dificilmente é significável senão como encantamento. Não responde às necessidades básicas da vida, não é essencial à sobrevivência, pode ser considerado dispensável ao cotidiano dos homens... Entretanto, encontrá-la, ser tocado por suas imagens, por esse tempo que dura, pelo movimento em transformação que apresenta nos coloca na condição do homem que busca a mulher nas estepes siberianas: você me olhou, e agora, o que fazer com isso? O que fazer com essa perturbação do corpo, com essa desordem sensório-motora, com essa abundância de perceptos e de afectos que o afetam? E não se trata, nessa pergunta, de compreender nem de explicar, mas sim de saber como dispor-se ao encontro com seus ritmos, suas velocidades, suas variedades, seus fluxos, pois é na afetação que se produz nesse encontro que o corpo, tomado por essas forças que lhe chegam sem que delas tenha controle, é forçado a pensar. Um pensar que só é possível no próprio afetar-se, no habitar a diferença que se produz nesse encontro corpo-imagens. Pois a força de um filme não está na tela nem no olho de quem o vê; está no entre.

Zero

No encontro, a educação é do olhar; no encontro, o que pulsa é a possibilidade de pensar; no encontro, o que o sustenta é uma ética. Não se trata de “qual cinema” colocar na escola, mas “como” colocar o cinema na escola.
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A referência, aqui, é ao filme Euphoria, de Ivan Vyrypayev. Produção russa de 2006, o filme é um poema audiovisual que tem como protagonista as estepes siberianas. Um homem e uma mulher saem em louca corrida pelas estepes, movidos por uma urgência que não podem nomear.


Onde encontrar: DON'T PANIC

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