*** em construção ***



quinta-feira, 7 de outubro de 2010

TERRA EM TRANSE – 1967


Diretor: Glauber Rocha
Roteiro: Glauber Rocha
Gênero: Drama
Origem: Brasil
Ano: 1967


Sinopse:

Num país fictício chamado Eldorado, o jornalista e poeta Paulo oscila entre diversas forças políticas em luta pelo poder. Porfírio Diaz é um líder de direita, político paternalista da capital litorânea de Eldorado. Dom Felipe Vieira é um político populista e Julio Fuentes, o dono de um império de comunicação. Em uma conversa com a militante Sara, Paulo conclui que o povo de Eldorado precisa de um líder e que Vieira tem os pré-requisitos para a missão. Grande clássico do Cinema Novo, o filme faz duras críticas à ditadura.


Elenco:

Jardel Filho - Paulo Martins
Paulo Autran - Porfirio Diaz
José Lewgoy - Felipe Vieira
Glauce Rocha - Sara
Paulo Gracindo - Don Julio Fuentes
Hugo Carvana - Alvaro
Danuza Leão - Silvia
Jofre Soares - Padre Gil
Modesto De Souza - Senator
Mário Lago - Capitão
Flávio Migliaccio
Telma Reston
José Marinho
Francisco Milani
Paulo César Peréio



O filme anterior de Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do sol, havia sido concebido e filmado ainda em 1963, antes do golpe militar que derrubou João Goulart e que pouco a pouco ia minando boa parte dos sonhos de sua geração. A conversa agora era outra. O mundo a mudar não estava escondido no interior distante, o mundo estava mudando para pior em todos os lugares, em plenas metrópoles, o mundo estava mudando bem debaixo das fuças dos idealistas que achavam que estavam mudando o mundo. Terra em Transe é sobre isso, é sobre essa paulada na cabeça que foi ver suas ilusões indo por água abaixo após a violência institucional.

Como é dito no filme, pelo seu protagonista, Paulo Martins:

"Não anuncio cantos de paz, nem me interessam as flores do estilo."

Esclarecendo depois:

"Todos somos simpáticos, desde que ninguém nos ameace"

Terra em Transe é um filme especial. Será que isso é uma obviedade? Deve ser, mas é preciso reafirmar. No início da década passada, foi contestado por um célebre dramaturgo televisivo, que repetia os mesmos argumentos de que zombava Glauber no artigo que publicamos nessa edição. Ninguém entende o filme, dizem alguns. A resposta do cineasta ponderava sobre o cinema equivalente à poesia de Rimbaud ou à pintura de Cézanne ou Van Gogh. É preciso entender tudinho?

Diz Paulo Martins no filme:

"Precisamos resistir, resistir!, e eu preciso cantar, eu preciso cantar!
Não é mais possível essa festa de medalhas..."


É um filme especial. Operístico e barroco são sempre os adjetivos que acompanham esse tipo de análise. Pois é, é isso aí. É um filme na corda bamba, é um filme desesperado e amargurado. É o triste fim de quem levou a sério a idéia de mudar as condições sociais do país.

Em Eldorado, capital de um país de mesmo nome, Paulo Martins é um poeta que trabalha como jornalista e "ghost-writer" de políticos, um sujeito que, com suas ambições poéticas, pretende conciliar a ética e a estética. Quer ser poeta, mas quer falar de temas... políticos! Não tendo espaço para isso em Eldorado, abandona sua namorada arranjada e seu protetor, o senador eleito Porfirio Diaz, e, e vai para a província de Alecrim, onde conhece Sara, descobre a pobreza de seu povo e passa a assessorar Felipe Vieira, candidato a governador. A impostura populista de Vieira logo se revela, e um golpe é tramado para lhe tirar do poder. Diante da covardia de Vieira, Paulo se desespera e prega a luta armada. Foge, e acaba sendo baleado.

O filme é contado quase todo num imenso flash-back, onde Paulo, às portas da morte, relembra toda a história. Através desse mote, de uma história relembrada por um homem agonizante, aparece uma trama que enlaça um sujeito que, a despeito de seu temperamento impetuoso e das pequenas maldades que comete, permanece ligado aos seus ideais até o fim, até o ponto em que for necessário.

Parece que todo o filme se sintetiza na percepção amarga de Sara: "A política e a poesia são demais para um só homem". Paulo Martins diz ter "A fome do absoluto", busca até o fim conciliar os extremos, e fracassa.

Dom Porfirio Diaz é um inimigo odiado e admirado, é quem perdeu todos os pudores em busca do poder pelo poder, capaz de trocar de aliados ao sabor dos ventos. Tem um discurso totalmente fascista, é talvez o mais claro vilão dos filmes de Glauber. É elite desde Pedro Álvares Cabral, e de lá não sai por fazer política com competência. Política dessas que se faz nos escritórios. Diaz tem horror do povo e das ruas. Foi radical de esquerda na juventude, e agora seu discurso é pela família e por Deus.

Felipe Vieira é o aliado-símbolo, o líder político que acaba por se mostrar frágil, covarde, populista, ineficiente. É o fascínio pelo papel desempenhado por João Goulart, o líder que não existiu. Paulo, o ideólogo de Vieira, se vê traído pelo seu patrão, o magnata das comunicações Julio Fuentes. Fuentes, que se considera um "homem de esquerda", é convencido do perigo que corre com a ascensão de projetos populistas, e acaba se unindo a Diaz e à multinacional Sprint, fabricante de armas, para impedir a vitória de Vieira na eleição presidencial que se aproxima. Diante de um acontecimento fortuito, em que Vieira vacila diante da necessidade de sacrificar um leão-de-chácara aliado (referência a Vargas e Fortunato? Ou profetização do Riocentro?), os acontecimentos se precipitam, e os militares tratam de tirar Vieira do poder. Diaz nos informa, zombeteiro, que a luta de classes existe, e pergunta a cada um da platéia, você sabe a que classe pertence?

O que é mais triste, a sordidez do projeto elitista e autoritário? Ou a fragilidade mentirosa do projeto populista? Vieira vai ao populacho, abraça todo mundo e não resolve nada, ao contrário, só faz cagadas. Já Diaz nem cogita em chegar perto do povo. (teria medo de perder o Rolex, talvez).

E o povo? O povo é representado por José Marinho, numa cena famosa e antológica, em que ele, presidente de sindicato, é instado a se manifestar, e inicia um discurso óbvio e despreparado. É interrompido por um irritado Paulo, que nos diz:

"Este é o povo: Um imbecil, um analfabeto, um despolitizado".

Não há esperança nas ações do povo. Não há esperança na fibra dos políticos honrados. Muito menos no discurso reacionário. Terra em Transe é amargurado, é um filme que termina destruído como seu protagonista. Vai até as raias da loucura por seu idealismo, e termina desiludido e abandonado, partindo numa tentativa desesperada, que nada mais seria do que o encontro com seu fim. A luta por ideais justifica a vida, e é preferível o fim da vida a continuá-la sem seus ideais. É o destino reservado aos mártires.

Talvez seja um filme ultrapassado nos dias de hoje. Alguém acha isso?

O que pode querer dizer "datado"? Sim, acho que Terra em Transe é datado, é um filme que surge de seu momento, que não poderia existir nem antes nem depois. E isso só o torna mais significativo, mas não anula qualquer uma das suas questões ou obscurece qualquer que seja das suas imensas qualidades.

Logo no início, diz um letreiro, com parte do poema de Mário Faustino que inspirou o filme:

"Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmo sangrento e a alma pura
--------------
Gladiador defunto, mas intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura)"


Agora me lembro de quando tinha catorze anos de idade.

Alguns filmes nos dão imenso prazer. Alguns outros marcam nossa memória. Uns poucos podem até ajudar a definir nossos padrões, éticos ou estéticos. Mas há os casos em que um filme balança nossa cabeça e muda o norte de nossa vida, há casos em que o impacto de uma obra pode ajudar a resolver questões definitivas para nós, pode, enfim, mexer conosco a ponto de decidirmos "o que vamos fazer na vida".

Acho que a melhor maneira de encerrar este texto é reconhecendo que é assim que me lembro de Terra em Transe.
por Daniel Caetano

Onde encontrar: ACERVO NACIONAL

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