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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

NELSON PEREIRA DOS SANTOS - Brasil


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Nelson Pereira dos Santos: resistência e esperança de um cinema – página com grande entrevista e fotos dos filmes


FILMOGRAFIA:

Longa-metragens

2006 - Brasília 18%
1998 - Guerra e Liberdade - Castro Alves em São Paulo
1995 - Cinema de Lágrimas
1994 - A Terceira Margem do Rio
1987 - Jubiabá
1984 - Memórias do Cárcere
1980 - Na Estrada da Vida com Milionário & José Rico
1977 - Tenda dos Milagres
1974 - O amuleto de Ogum
1972 - Quem é Beta?
1971 - Como Era Gostoso o Meu Francês
1970 - Azyllo Muito Louco
1968 - Fome de Amor
1967 - El Justicero
1963 - Vidas Secas
1962 - Boca de Ouro
1961 - Mandacaru Vermelho
1957 - Rio, Zona Norte
1955 - Rio, 40 Graus

Documentários, curta-metragens e series TV

2009 - Português, a Língua do Brasil (documentário)
2004 - Raízes do Brasil (documentário)
2001 - Meu Cumpadre Zé Keti (curta-metragem)
2000 - Casa Grande & Senzala (série documental para TV)
1982 - Missa do Galo (curta-metragem)
1949 - Juventude (curta-metragem)


Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2006, ocupando a cadeira 7, cujo patrono é Castro Alves, é o primeiro cineasta brasileiro a se tornar imortal.

Recebeu o Troféu Candango, Festival de Brasília, por Tenda dos Milagres (Melhor Diretor e Melhor filme); em Cannes, recebeu o Prêmio OCIC, por Vidas Secas e o Prêmio FIPRESCI por Memórias do Cárcere; recebeu o Kikito, Festival de Gramado, por O Amuleto de Ogum; o Gran Coral, Festival de Havana, por Memórias do Cárcere e o Prêmio APCA de melhor filme também por Memórias do Cárcere.


FRANÇOIS TRUFFAUT disse certa vez que toda a obra de um cineasta está contida no primeiro carretel de seu primeiro filme. Talvez essa afirmação seja válida somente para aqueles realizadores que apresentam grande coerência no interior de suas obras. Esse é o caso de Nelson Pereira dos Santos.

No primeiro carretel de Rio, 40 graus, podemos identificar uma característica que estaria presente durante toda sua trajetória como artista: o amor pelo Brasil. No entanto, a nação que Nelson Pereira dos Santos decidiu levar para as telas não é aquela dos cartões-postais, com belas praias ensolaradas. O Brasil que o diretor se propôs a retratar em seus filmes era grande demais para caber em versões oficiais, pois era o país dos favelados, dos flagelados pela seca, dos artistas do povo, do universo mágico popular, dos intelectuais em crise ou atuantes diante dos regimes ditatoriais.


"Quando fiz Vidas Secas ainda não existia Cinema Novo. Acho que a literatura brasileira, principalmente aquela feita pelos modernistas e escritores do Nordeste, seduziu muito os cineastas. O cinema, como elemento da modernização, obrigava-se a ser tematicamente moderno – ao contrário do caso da Vera Cruz, que tinha equipamentos muito modernos, mas os filmes eram tematicamente muito acadêmicos, contando historinhas parecidas com as de Hollywood. Até mesmo O cangaceiro, que fez muito sucesso, é um western americano filmado com roupa de cangaceiro – e rodado em São Paulo! Lembro-me que em 1952, quando cheguei ao Rio de Janeiro, havia muitos projetos de filmar Jorge Amado. Lembro-me do Moacyr Fenelon (o homenageei em Rio, 40 graus batizando a equipe do filme com seu nome) que dizia querer fazer um cinema de pés no chão ... " - Nelson Pereira dos Santos

CARLOS REICHENBACH - Brasil



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FILMOGRAFIA:

como diretor de longas metragens

2007 - Falsa Loura
2003/04 - Bens Confiscados
2002/03 - Garotas do ABC
1999 - Dois Córregos
1993 - Alma corsária
1987 - Anjos do arrabalde, as professoras
1986 - Filme demência
1984 - Extremos do prazer
1981 - O paraíso proibido
1981 - Amor, palavra prostituta
1980 - Império do desejo
1979 - Sede de amar (Capuzes negros)
1979 - A ilha dos prazeres proibidos
1975 - Lilian M., relatório confidencial
1972 - A corrida em busca do amor

como diretor de curtas e episódios

2002 - Equilíbrio e Graça
1994 - Olhar e sensação
1989 - Desordem em progresso, episódio de City life
1982 - Rainha do flipper, primeiro episódio de As safadas
1979 - Sonhos de vida
1979 - Sangue corsário
1979 - O M da minha mão
1969 - Prólogo (co-direção com Antônio Lima) e
A badaladíssima dos trópicos x Os picaretas do sexo,
primeiro episódio de Audácia! - A fúria dos desejos
1967 - Alice, primeiro episódio de As libertinas
1966/68 - Esta rua tão Augusta
1965 - Duas cigarras

como ator

1986 - Filme demência
1980 - A mulher que inventou o amor, de Jean Garret
1978 - Noite em chamas, de Jean Garret
1978 - Belas e corrompidas, de Fauzi Mansur
1977 - O vampiro da cinemateca, de Jairo Ferreira
1976 - A casa das tentações, de Rubem Biáfora
1975 - Ainda Agarro este Machão, de Edward Freund
1972 - Gringo, o último matador, de Edward Freund
1971 - No Rancho fundo, de Oswaldo Oliveira
1971 - Finis Hominis, de José Mojica Marins
1970 - Sertão em festa, de Osvaldo Oliveira
1970 - Ritual de sádicos (O Despertar da Besta), de José Mojica Marins
1970 - O pornógrafo, de João Callegaro
1968 - O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla


Considerado um dos mais importantes realizadores paulistas, Reichenbach teve sua obra reconhecida internacionalmente em 1985 no Festival de Rotterdam, Holanda, onde participou com seus filmes por cinco anos consecutivos. Foi por duas vezes premiado pela Cinemateca Real de Bruxelas, recebeu com ALMA CORSÁRIA, o prêmio dos 30 anos do Festival do Novo Cinema de Pesaro. Em 2001 foi o primeiro cineasta a receber o Troféu Eduardo Abelim no 29° Festival de Gramado. Recebeu também o troféu Barroco, pela obra, na 3ª Mostra de Cinema Brasileiro de Tirandentes, Minas Gerais, e o troféu especial do Guarnicê de Cine-Vídeo, em São Luiz do Maranhão.


OLHOS LIVRES - os melhores links de cinema

Grande divulgador da cultura, Carlos Reichenbach mantém em seu site, em processo de atualização permanente, relação de links de pesquisa geral, de pesquisa de cinema, academias de cinema, de acesso aos filmes (busca de legendas, blogs, Sites, Fóruns e Comunidades de Compartilhamento, cursos e escolas de cinema, leitura crítica e informativa, festivais brasileiros e internacionais de cinema, sites de posters, fotos e cartazes de filmes, DVDs e vídeos raros (Brasil e Exterior), endereços com MP3 de Trilhas Sonoras, sites e blogs de arte, cultura e entretenimento e afins.


JOSÉ MOJICA MARINS - Brasil


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FILMOGRAFIA:

Como diretor

2008 - Encarnação do Demônio
2004 - Fim (curta metragem)
1996 - Adolescência em Transe
1994 - Demônios e Maravilhas
1987 - Quarenta e Oito Horas de Sexo Alucinante
1986 - Dr. Frank na Clínica das Taras
1985 - 24 horas de sexo explícito ou 24 horas de sexo ardente
1984 - A Quinta Dimensão do Sexo
1983 - Horas Fatais - Cabeças Cortadas
1981 - A Encarnação do Demônio
1980 - A Praga
1978 - Perversão
1978 - Mundo-Mercado do Sexo
1977 - Estranha Hospedaria dos Prazeres
1977 - Delírios de um Anormal
1977 - A Mulher Que Põe a Pomba no Ar
1976 - Mulheres do Sexo Violento
1976 - Inferno Carnal
1976 - Como Consolar Viúvas
1975 - O Fracasso de Um Homem nas Duas Noites de Núpcias
1974 - Exorcismo Negro
1974 - A Virgem e o Machão
1972 - Sexo e Sangue na Trilha do Tesouro
1972 - Quando os Deuses Adormecem
1972 - Dgajão Mata para Vingar
1971 - Finis Hominis
1970 - Ritual de Sádicos
1968 - Trilogia do Terror
1967 - O Estranho Mundo de Zé do Caixão
1966 - Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver
1965 - O Diabo de Vila Velha
1964 - À Meia-Noite Levarei Sua Alma
1962 - Meu Destino em Tuas Mãos
1958 - Sina de Aventureiro
1955 - Sentença de Deus (inacabado)
1948 - A Voz do Coveiro
1947 - Sonhos de Vagabundo
1946 - Beijos a Granel
1945 - A Mágica do Mágico

Como ator

2009 - A Cruz e o Pentagrama (de Cesar Nero)
2005 - A Marca do Terror (de Ivan Cardoso)
2004 - Um Show de Verão (de Moacyr Góes)
2001 - Tortura Selvagem - A Grade (de Afonso Brazza)
2001 - Dr. Bartolomeu e a Clínica do Sexo (de Mário Lima e Tom Camps)
1997 - Ed Mort (de Alain Fresnot)
1997 - A Filha do Pavor (de Andréa Pasquini)
1996 - Babu e a Vingança Maldita(de Cesar Nero)
1990 - O Gato de Botas Extraterrestre (de Wilson Rodrigues)
1989 - Dama de Paus (de Mário Vaz Filho)
1987 - Horas Fatais (de Francisco Cavalcanti e Clery Cunha)
1987 - As Belas da Billings (de Ozualdo Ribeiro Candeias)
1986 - A Hora do Medo (de Francisco Cavalcanti)
1985 - O Filho do Sexo Explícito (de Francisco Cavalcanti)
1984 - Padre Pedro E a Revolta das Crianças (de Francisco Cavalcanti)
1982 - O Segredo da Múmia (de Ivan Cardoso)
1980 - Chapeuzinho Vermelho (de Marcelo Motta)
1978 - A Deusa de Mármore (de Rosângela Maldonado)
1977 - O Vampiro da Cinemateca (de Jairo Ferreira)
1977 - O Abismo (de Rogério Sganzerla)
1970 - O Profeta da Fome (de Maurice Capovila)
1969 - O Cangaceiro Sem Deus (de Oswaldo De Oliveira)
1966 - O Diabo de Vila Velha (Armando de Miranda e Ody Fraga)
1960 - Éramos Irmãos (de Renato Ferreira)


Principais Prêmios e Indicações

À Meia-Noite Levarei Sua Alma: recebeu o Prêmio Especial no Festival Internacional de Cine Fantástico y de Terror Sitges (Espanha), em 1973; o Prêmio L’Ecran Fantastique para originalidade, em 1974; e o Prêmio Tiers Monde da imprensa mundial, na III Convention du Cinéma Fantastique (França), em 1974.

Por Ritual dos Sádicos (O Despertar da Besta) recebeu o de Melhor ator (José Mojica Marins) e Melhor Roteiro (Rubens Lucchetti), no Rio-Cine Festival, em 1986.

Encarnação do Demônio: recebeu o Troféu Menina de Ouro de Melhor filme de ficção por júri oficial e crítica, Melhor fotografia (José Roberto Eliezer), Melhor montagem (Paulo Sacramento), Melhor edição de som (Ricardo Reis), Melhor direção de arte (Cássio Amarante) e Melhor trilha sonora (André Abujamra e Marcio Nigro) no 1º Festival Paulínia de Cinema, em 2008; Melhor Diretor de Cinema (José Mojica Marins), no 2º Prêmio Quem de Cinema, 2008; Melhor Melhor Ator (José Mojica Marins) e Melhor Direção de Arte (Cassio Amarante).




Certa noite, ao chegar em casa bem cansado, fui jantar. Em seguida, estava meio sonolento, entre dormindo e acordado, e foi aí que tudo aconteceu: vi num sonho um vulto me arrastando para um cemitério. Logo ele me deixou em frente a uma lápide, lá havia duas datas, a do meu nascimento e a da minha morte. As pessoas em casa ficaram bastante assustadas, chamaram até um pai-de-santo por achar que eu estava com o diabo no corpo. Acordei aos berros, e naquele momento decidi que faria um filme diferente de tudo que já havia realizado. Estava nascendo naquele momento o personagem que se tornaria uma lenda: Zé do Caixão”. - José Mojica Marins


A vida de José Mojica Marins se confunde com a de Zé do Caixão. O personagem, criado em 11 de outubro de 1963, é a estrela de muitos filmes do diretor.

Inicialmente desprezado pela crítica nacional, passou a ser reverenciado após suas produções começarem a ser consideradas cult no circuito internacional.
À Meia Noite Levarei Sua Alma, de 1964, marcou a primeira das inúmeras aparições de Zé do Caixão nas produções de Mojica. No início, o personagem era um homem desiludido com a vida, por não conseguir uma mulher fértil que lhe desse o filho perfeito. A continuação viria em 1967, com Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver.

Em A Trilogia do Terror, de 1968, o diretor comanda o conto Pesadelo Macabro. O longa é baseado na série de TV Além, Muito Além do Além. No mesmo ano, Zé do Caixão apresenta três contos de terror em O Estranho Mundo de Zé do Caixão. O filme chegou a ser transformado em uma série de 13 episódios, exibida pela TV Tupi, que contaria com atores consagrados, como Lima Duarte. O Despertar da Besta foi vetado pela censura em 1969 e até hoje foi exibido apenas em festivais e sessões especiais. Nele, um psiquiatra injeta LSD em quatro voluntários para estudar os efeitos do tóxico sob a influência da imagem de Zé do Caixão. Em Exorcismo Negro, de 1974, acontece o confronto entre criador e criatura. Mojica, em papel duplo, interpreta a si mesmo e a seu alter-ego, o Zé do Caixão.

Zé do Caixão voltou a TV em 1981, onde apresentou contos de horror no programa Um Show do Outro Mundo, que teve doze episódios exibidos pela Rede Record. Depois disso, só retornaria em 1996, à TV Bandeirantes, na apresentação de Cine Trash, onde eram exibidas produções de horror estrangeiras.

Em 2008, o diretor lançou Encarnação do Demônio, sua produção com maior orçamento até então. O terror, que encerra a trilogia formada por À Meia-Noite Levarei sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, chegou a ser exibido no Festival de Veneza.

José Mojica Marins teve sua vida retratada por outros cineastas, como Jairo Ferreira, Ivan Cardoso e Godofredo Telles Neto. Recebeu do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do então ministro da cultura, Gilberto Gil, a Honra ao Mérito Cultural, uma medalha e um certificado pelos serviços prestados à cultura no Brasil e no exterior. - por Ana Amariz

GLAUBER ROCHA - Brasil


TEMPO GLAUBER


FILMOGRAFIA:

Longa-metragens

1980 -A Idade da Terra
1975 - Claro
1972 - Câncer
1971 - O Leão de Sete Cabeças
1970 - Cabeças Cortadas
1968 - O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro
1967 - Terra em Transe
1964 - Deus e o Diabo na Terra do Sol
1962 - Barravento

Documentários e curta-metragens

1966 - Maranhão 66 B
1959 - O Pátio A
1974 - História do Brasil
1974 - As Armas e o Povo C
1976 - Di Glauber
1979 - Jorge Amado no cinema




Glauber Rocha é uma página do Cinema Brasileiro pelo conjunto de sua obra e sua importância ímpar dentro do conceito de cultura nacional. Criador da expressão “uma idéia na cabeça e uma câmera na mão”, que fundou o Cinema Novo brasileiro na década de 60, o cineasta aos seis anos de idade já sabia qual seria sua profissão. Controvertido e incompreendido por muitos, patrulhado tanto pela direita como pela esquerda, Glauber tinha uma visão apocalíptica e decadente do mundo refletida em sua obra. Para o poeta Ferreira Gullar, “Glauber se consumiu em seu próprio fogo”.

Glauber Rocha nasceu em Vitória da Conquista, Bahia, em 14 de março de 1939. Ao longo de sua carreira, fez 11 longas e seis curtas, tendo a luta pela liberdade como tema recorrente. Liderou o movimento do Cinema Novo que buscava quebrar radicalmente com o estilo cinematográfico americano. A idéia era ter um cinema com mais realidade, mais conteúdo e menor custo. Com obras como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969) fez duras críticas sociais sobre a realidade brasileira.

No Festival de Cannes recebeu o Prêmio da Crítica (FIPRESCI) por Terra em Transe, de Melhor Diretor por O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro e de Melhor curta-metragem por Di Glauber.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA - 1964


Diretor: José Mojica Marins
Roteiro: José Mojica Marins e Waldomiro França
Gênero: Terror
Origem: Brasil
Ano: 1964


Sinopse:

Zé do Caixão, um cruel coveiro, quer gerar um filho para dar continuidade ao seu sangue. Mas sua mulher não consegue engravidar e ele acaba estuprando a mulher do seu melhor amigo, que agora deseja se suicidar para regressar ao mundo dos mortos e levar a alma de Zé do Caixão.


Elenco:

José Mojica Marins - Zé do Caixão
Magda Mei - Terezinha
Nivaldo de Lima - Antônio
Ilídio Martins - Dr. Rodolfo



Em meados de 1963, uma história curiosa corria pelo meio cinematográfico de São Paulo: um maluco, acompanhado de um séquito de seguidores que o chamavam de mestre, estava realizando um filme sem qualquer verba em um galpão na capital paulista. O maluco era dono de um obscuro “curso de cinema” e tinha diversas passagens pela imprensa sensacionalista como salafrário.

O maluco em questão era José Mojica Marins – e era quase verdade que naquele momento, realizava um filme sem verba alguma, patrocinado apenas pela idolatria de seus “alunos”. Antes daquele filme, Mojica vinha de duas experiências fracassadas como diretor e chegara a passar fome por conta do seu sonho de filmar. Para a concretização daquela nova aventura, contava com o dinheiro arrecadado entre a turma e... a venda dos móveis e utensílios domésticos da sua casa, além de grande parte das próprias roupas! Mojica não tinha mais casa, sua mulher esperava um filho e ele achou por bem “morar” no estúdio, dentro do caixão que servia de cenário.

Não estamos obviamente falando de um homem comum, estamos falando de um gênio. Sem nunca ter entrado sequer em um curso básico de cinema, aquele paulistano da Casa Verde se metia a dirigir filmes e dar aulas do assunto. Seu pai tinha um cinema, verdade, mas donos de cinema nunca geraram filhos diretores. Quando aos vinte e oito anos de idade sua existência parecia condenada ao desespero – por conta dos retumbantes fracassos naquela que era a única coisa que acreditava fazer –, o jovem Mojica teve um sonho. E o sonho salvou sua vida profissional para sempre.

No sonho Mojica viu Zé. Encrespou-se para o gabinete do “curso” e solicitou que uma das alunas, que fazia as vezes de secretária, transcrevesse suas idéias para o papel. Do medo e do incômodo que sentiu por Zé, criou um argumento. Convocou os alunos e decidiu: “Vamos filmar”. Foi dessa forma que nasceu Zé do Caixão, e em 1964 chegou aos cinemas de São Paulo um filme com o gaiato título de “À meia-noite levarei sua alma”.

Zé do Caixão, não era nem é uma assombração, como muitos ainda pensam. Zé é apenas um cético, um zombeteiro, que acredita na força humana contra a punição divina. É um artífice de Nieztche, por um homem que nunca leu um livro. Talvez Mojica tenha temido o pesadelo com Zé do Caixão, porque Zé do Caixão afinal era ele próprio – e falava de seus medos, angústias e desejos mais contidos.

Em “À meia-noite...” Zé aterroriza uma cidade apenas com sua força. Parodiando o escritor Lúcio Cardoso, Zé do Caixão “não é um homem, é uma atmosfera”. Por onde passa espalha desgraça, covardia, pusilanimidade. Contrariando a ordem da Igreja, come carne de carneiro na sexta-feira santa. Toma dinheiro dos matutos da aldeia e quando um corajoso nega pagamento, decepa-lhe os dedos.

Além de todas estas atividades, Zé também é agente funerário. E, nas horas vagas, sonha em ter um filho, “que perpetue seu sangue”. A esposa não engravida – na vida real a esposa de Mojica também tinha dificuldades de engravidar – e Zé do Caixão dá seu vaticínio: “A mulher que não pode ter filhos não precisa de cuidados” – em seguida, ele a mata.

Zé cobiça a bela Teresinha (Magda Mei, a secretária do curso de Mojica), mas tem o amigo Antônio (Nivaldo de Lima) como rival. Para um homem que tudo pode e que tudo quer, aquilo não é problema. Zé mata Antônio, em cena brilhante. Quando Zé prega seu niilismo e ceticismo, Antônio rebate afirmando-se um conformado com orgulho, um temente a Deus. Zé então apanha uma barra de ferro, assassina Antônio e pergunta: “E agora, de que adiantou sua crença Nele?”.

Depois Zé vai atrás de Teresinha, com quem tem relações sexuais forçadas, enquanto a moça esmaga um passarinho nas mãos. Teresinha se suicida e Zé tem que continuar a matar, para sustentar sua liberdade. As vítimas vão se sucedendo e a descrença e o deboche de Zé aumentam. Tudo culmina em uma volta das almas penadas das vítimas e só nesse ponto é que o filme adquire um tom sobrenatural, de terror inexplicável. Antes Zé era só lógica, era a razão contra a superstição e a crença.

Mojica terminaria o caso melhor se Zé vencesse, triunfasse contra a cidade e provasse que nada existe, que, como ele diz após pisar em um despacho, “estão todos mortos, e mortos não podem fazer mal a ninguém”. Mas a proposta era uma trama além da razão, portanto Zé encontra, no fim da linha, o castigo. E o castigo contraria sua implacável lógica e o joga no difuso, no imponderável, ou como Mojica prefere dizer, nas trevas.

“À meia-noite...” é um filme para poucos. Em 1964, quando foi lançado, Mojica não foi tomado como cineasta, mas como um homem seriamente doente. O sucesso absoluto de público não se converteu sequer em lucro, pois havia vendido seus direitos na estréia por uma ninharia, e só arcou com o ônus das críticas pesadíssimas.

Em resposta, o realizador deu ao povo mais e melhor, em outras pérolas como “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” e “Ritual dos Sádicos”. É certo afirmarmos, portanto, que Mojica nunca fez cinema: o cinema é que morava dentro dele e Mojica apenas precisou colocá-lo, espontaneamente, para fora. - por Andrea Ormond

Onde encontrar: ACERVO NACIONAL

TRILOGIA DE TERROR – 1968



Diretores: José Mojica Marins, Ozualdo Candeias, Luís Sérgio Person
Roteiro: Ozualdo Candeias, Luís Sérgio Person e José Mojica Marins e Rubens Francisco Luchetti
Gênero: Terror
Origem: Brasil
Ano: 1968


Sinopse:

Três diretores contam três histórias de horror adaptadas da série de TV "Além, Muito Além Do Além". Em "O Acordo" (de Candeias), uma mãe se envolve com magia negra e oferece uma donzela ao diabo em troca de casar a filha solteira, em "Procissão Dos Mortos" (de Person), um pobre, mas destemido operário, é o único homem numa cidadezinha do interior com coragem para enfrentar um grupo de guerrilheiros fantasmas que aparecem durante a madrugada, "Pesadelo Macabro" (de Mojica) fala de um rapaz que é aterrorizado por cobras e lagartos em pesadelos nos quais é enterrado vivo.


Elenco:

Lucy Rangel
Regina Célia
Durvalino De Souza
Luiz Humberto
Ubirajara Gama
Alex Ronay
Henrique Borges
Nadia Tell
Eddio Smanio
Eucaris Moraes
Assis Dias
José Júlio Spiewak
Lima Duarte
Cacilda Lanuza


No primeiro semestre de 1968 ficou pronto o filme "Trilogia De Terror".

Produzido por Antônio Polo Galante e Renato Grecchi, o longa-metragem tem três episódios, com direção de José Mojica Marins, Ozualdo Candeias e Luís Sérgio Person. O episódio "Pesadelo macabro", dirigido por Mojica, foi idealizado para se tornar a adaptação cinematográfica de capítulos da série televisiva Além, muito além do além, que o próprio Mojica mantinha na TV Bandeirantes desde setembro de 1967.

Ex-parceiros de Mojica, Person (roteirista não creditado de A sina do aventureiro) e Candeias (roteirista também não creditado de Meu destino em tuas mãos e eventual colaborador em outras produções do amigo) escolheram dirigir, respectivamente, os episódios "Procissão dos mortos", sobre uma cidade aterrorizada por fantasmas, e "Noite negra", renomeado para o cinema como "O acordo", sobre uma mulher desesperada que pactua com o demônio à espera da cura para a doença de sua filha.

A partir de enredos bem diferentes, surgiu uma tendência comum aos dois cineastas no filme "Trilogia de Terror": a intelectualização de temas originalmente voltados para o consumo popular. Na direção do politizado Person, os espíritos que assombram a cidade interiorana se transformaram em “guerrilheiros espaciais”, devidamente trajados de boinas e metralhadoras, espelhando semelhança assombrosa e ambígua com o então recém-falecido Che Guevara.

Na direção de Candeias, o cotidiano de outra pequena cidade, recriado à moda western e tomado por entidades mágicas, é retratado em narrativa fragmentada, distante do modelo cinematográfico clássico e comercial.

Mojica, por sua vez, optou por outro caminho. Ao filmar "Pesadelo macabro", sobre um rapaz, Cláudio, atormentado pelo receio de ser enterrado vivo, o diretor utilizou elementos comerciais próximos aos que o consagraram na pele de Zé do Caixão em longas-metragens como À meia-noite levarei sua alma e Esta noite encarnarei no teu cadáver. Dos pesadelos do protagonista, repletos de rostos disformes, gritos, cobras, aranhas e sapos; ao ritual de macumba em que homens comem vidro e um pai-desanto quase circense chicoteia jovens donzelas em um processo de purificação e nudez, Mojica soube mobilizar o imaginário popular em torno do terror e do erótico, oferecendo um espetáculo grotesco pleno de voyeurismo.

Este apelo ao imaginário ganhou força pela escolha da temática: ser enterrado vivo parece, ainda hoje, um dos grandes temores da humanidade. A imagem de um corpo a se debater solitário, certo da morte próxima, é recorrente na dramatur gia, reflexo de um calafrio a incomodar o espectador. Da mesma forma, incomoda a cena construída por Mojica para mostrar o desespero de Cláudio ao desper tar dentro do caixão: seu grito, silenciado pelos palmos de terra, é uma tentativa inútil de conseguir ajuda.

O escritor norte-americano Edgar Allan Poe, no conto "O enterramento prematuro", descreveu tal sentimento com maestria: "A insuportável opressão dos pulmões, os vapores sufocantes da terra úmida, o contato dos ornamentos fúnebres, o rígido aperto das tábuas do caixão, o negror da noite absoluta". - Roberto(Fonfagu)


Onde encontrar: CINE-CULT-CLASSIC

VIDAS SECAS - 1963



Diretor: Nelson Pereira dos Santos
Gênero: Drama
Origem: Brasil
Ano: 1963


Sinopse:

Família de retirantes, Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho, o menino mais novo e a cachorra Baleia, pressionados pela seca atravessam o sertão em busca de meios de sobrevivência.


Elenco:

Átila Iório - Fabiano
Genivaldo Lima
Gilvan Lima
Orlando Macedo - Soldado Amarelo
Maria Ribeiro -Sinhá Vitória
Jofre Soares
Pedro Santos
Maria Rosa




Baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos, é um dos filmes brasileiros mais premiados em todos os tempos. Foi o único filme brasileiro a ser indicado pelo British Film Institute como uma das 360 obras fundamentais em uma cinemateca. Neste filme fica perceptível a influência marcante do neo-realismo italiano na obra do diretor Nelson Pereira dos Santos. Além disso, foi o vencedor do Prêmio do OCIC e Prêmio dos Cinemas de Arte em Cannes, 1964.


Onde encontrar: ACERVO NACIONAL

O AMULETO DE OGUM - 1974


Diretor: Nelson Pereira dos Santos
Roteirista(s): Nelson Pereira dos Santos, Francisco Santos
Gênero: Drama
Origem: Brasil
Ano: 1974


Sinopse:

Cercado por três bandidos, violeiro cego conta a história do nordestino que se mete com marginais da Baixada Fluminense, é morto, mas ressuscita, protegido por Ogum.


Elenco:

Ney Santanna
Anecy Rocha
Jofre Soares
Maria Ribeiro
Emmanuel Cavalcanti
Jards Macalé
Erley José
Francisco Santos
José Marinho
Antônio Carlos de Souza Pereira
Ilya São Paulo



"Amuleto de Ogum" é o melhor filme do Nelson e um dos melhores filmes do cinema nacional. Sinto um cinema moderno, pulsante, e extremamente atual e pertinente, acho que poucas vezes alguém filmou tão bem a religiosidade do brasileiro e isso, óbvio, tinha que. ser feito por um ateu como o Nelson. Você percebe que o filme crê no que mostra, ou no mínimo, tem um gigantesco respeito por quem crê no que ele mostra. A cena dos garotos pegando as armas e a cena da tortura com os meninos são verdadeiros achados que remetem a filme atuais como "Cidade de Deus", e nesse sentido, é um filme premonitório de como o crime iria se articular a partir de então. O "quase" plano final rodado no mar com Nei Sant'Anna ressurgindo é na minha opinião o grande plano de toda a história do cinema nacional. Enfim, eu poderia discorrer linhas e linhas. - Eduardo Aguilar, leitor

A ressurreição de Gabriel me marcou indelevelmente 35 anos atrás - para mim foi como cruzar um umbral, a visão do mundo nunca mais foi a mesma. Gosto também do aspecto lúdico, veja que para contornar o corpo fechado fazem um trabalho que o torna alcóolatra. Para mim a história é superior ao filme, concordo que a realização poderia ser melhorada - mas só de ter feito a obra o NPS já merece todos os elogios. – Joel, leitor


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AZYLLO MUITO LOUCO - 1970


Diretor: Nelson Pereira dos Santos
Gênero: Comédia / Drama
Origem: Brasil
Ano: 1970


Sinopse:

Livre adaptação do livro ''O Alienista'', de Machado de Assis, o filme conta a história do padre católico Simão Bacamarte, que chega à pequena cidade de Serafim para investigar um certo fenômeno da demência. O problema é que o padre considera a maior parte da população louca e todos vão parar num sanatório. É quando as coisas saem do controle.


Elenco:

Nildo Parente – Padre Simão Bacamarte
Isabel Ribeiro - D. Evarista
Arduíno Colassanti - Porfírio
Irene Stefânia – amante do Porfírio
Leila Diniz - Eudóxia
Ana Maria Magalhães
Nelson Dantas
Manfredo Colassanti – o Juiz
José Kléber

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COMO ERA GOSTOSO O MEU FRANCÊS – 1971


Diretor: Nelson Pereira dos Santos
Roteiro: Nelson Pereira dos Santos
Gênero: Comédia / Drama
Origem: Brasil
Ano: 1971
Idiomas: Português/Tupi/Francês


Sinopse:

No Brasil de 1594, um aventureiro francês prisioneiro dos Tupinambás escapa da morte imediata graças aos seus conhecimentos de artilharia. Segundo a cultura Tupinambá, é preciso devorar o inimigo para adquirir todos os seus poderes, no caso saber utilizar a pólvora e os canhões. Enquanto aguarda ser executado, o francês aprende os hábitos dos indígenas.


Elenco:

Arduíno Colassanti – o francês
Ana Maria Magalhães - Seboipepe
Eduardo Imbassahy Filho - Cunhambebe
Manfredo Colassanti
José Kléber - Ipiraguaçu
Gabriel Archanjo - Mbiratata



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EL JUSTICERO – 1967


Diretor: Nelson Pereira dos Santos
Roteiro: Nelson Pereira dos Santos, baseado no romance "As vidas de El Justicero", de João Bethencourt
Gênero: Comédia
Origem: Brasil
Ano: 1967


Sinopse:

Uma divertida comédia que conta as aventuras de um playboy de Copacabana. Conhecido como "El Justicero", por defender fracos e oprimidos, o jovem é também um boa vida e conquistador, filho de general, que usa e abusa do dinheiro e prestígio do pai. Acaba apaixonando-se pela irmã de seu inimigo e entra na maior fossa quando descobre que esta não é mais virgem.


Elenco:

Arduíno Colassanti - Jorge Dias das Neves, El Justicero
Adriana Prieto - Ana Maria
Márcia Rodrigues - Araci
Emmanuel Cavalcanti - Asdrúbal
Álvaro Aguiar - General
Rosita Thomaz Lopes – mãe de Ana Maria
Selma Caronezzi
Hemílcio Fróes - Ari Lima, pai de Ana Maria
Telma Reston



Esse é um dos filmes brasileiros mais interessantes da década de 60, zombando ao mesmo tempo dos abusos da ditadura e do discurso pretensioso dos militantes da esquerda. É esse último aspecto que tornou esse filme um tanto maldito, já que os esquerdistas ortodoxos nunca souberam o que era ter senso de humor.
E que falta faz ao cinema nacional esse tom debochado, livre e crítico, que um cineasta tão flexível como NPS e os taxados como marginais tiveram. É difícil de acreditar que uma época tão cheia de censura, repressão, patrulhamentos ideológicos e carência de recursos tenha conseguido gerar filmes tão brilhantes como esse, O bandido da luz vermelha e A margem. Parece que a liberdade de expressão e os patrocínios institucionais transformaram o nosso cinema em uma repartição pública ou em um laboratório de clonagem. É mesmo estranho que se sentissem mais à vontade para "fazer graça" logo quando a situação esteve mais barra pesada, e agora paire esse marasmo, que dá a falsa impressão de que está tudo bem. - Saint Guinefort e Zé Qualquer, cinéfilos


Aqui crítica por Daniel Caetano no Contracampo

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BOCA DE OURO – 1962


Diretor: Nelson Pereira dos Santos
Roteiro: Nelson Pereira dos Santos, baseado em peça de Nelson Rodrigues
Gênero: Drama
Origem: Brasil
Ano: 1962


Sinopse:

Prepotente e cruel, Boca de Ouro manda arrancar todos os dentes perfeitos, substituindo-os por uma dentadura de ouro. Ele também cultiva o sonho de ser enterrado num caixão de ouro só para recompensar o trauma de ter nascido numa gafieira, e de ter sido abandonado pela mãe numa pia de banheiro. Boca de Ouro começa apresentando seu protagonista, que acabara de morrer assassinado. O repórter Caveirinha, designado para descobrir a verdadeira história do marginal, vai entrevistar sua ex-amante, Guigui, que conta três diferentes versões da vida do bicheiro.


Elenco:

Jece Valadão
Odete Lara
Daniel Filho
Maria Lúcia Monteiro
Ivan Cândido
Adriano Lisboa
Geórgia Quental
Maria Pompeu
Sulamith Yaari
Rodolfo Arena
Wilson Grey
Pérola Negra
Hildemar Barbosa
Ricardo Lima
Paulo Copacabana
Francisco Santos



Eis um filme feito para dar certo nas bilheterias: a primeira adaptação do teatro do autor mais polêmico e proibido do teatro nacional, protagonizada pelo cunhado e dirigida por um diretor moderno, acompanhada de um concurso de seios, em plenos anos 60! Sucesso na certa ou fracasso retumbante, sem meio-termo.

Por detrás da cena, no entanto, o clima era outro. Nelson Pereira dos Santos, militante da esquerda e fã do neo-realismo, não tinha afinidade com a exacerbação de Nelson Rodrigues; e Odete Lara achava tudo falso, mesmo os celebrados diálogos do autor. Ambos fizeram o filme pelo cachê. Acontece que, por ironia do destino, Boca de Ouro resultou num ótimo trabalho do diretor e quase certamente na melhor interpretação da bela atriz. De quebra, ainda fez muito sucesso de bilheteria, desencadeando a primeira fase de adaptações das peças rodriguianas.

A estrutura deste filme é nitidamente influenciada pelo Rashomon, de Kurosawa. Um personagem conta a mesma história de maneira diferente, de acordo com as suas circunstâncias emocionais. O enredo, saído das sensacionalistas páginas policiais cariocas dos anos 50, fala do jogo do bicho, tema ainda virgem no teatro sério da época. E tem grã-finas, dignas das colunas de Ibrahim Sued e Jacinto de Thormes, envolvidas com o baixo mundo das navalhadas e assassinatos.

De um lado, temos uma adaptação fiel do espetáculo teatral, com os diálogos aparentemente coloquiais, a um passo da comédia e do dramalhão — destaque para o desempenho magistral de Jece Valadão, fazendo o tipo cafajeste carioca que marcou sua carreira. De outro, o realismo social do diretor, em duas seqüências antológicas: a conversa entre Leleco e Celeste numa passarela da Central do Brasil e a cena final no necrotério, com d. Guigui, o marido e os jornalistas. Este é um exemplo do melhor cinema industrial carioca pós-chanchada, porém anterior ao golpe militar. Está muito próximo, por exemplo, de Assalto ao trem pagador, de Roberto Farias, e Engraçadinha depois dos trinta, Asfalto selvagem e Massacre no supermercado, de J. B. Tanko — todos produzidos ou coproduzidos por Herbert Richers. Comercial, eficiente e popular, uma corrente promissora, ainda pouco estudada, castrada pela chegada do Cinema Novo. - por João Carlos Rodrigues


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TERRA EM TRANSE – 1967


Diretor: Glauber Rocha
Roteiro: Glauber Rocha
Gênero: Drama
Origem: Brasil
Ano: 1967


Sinopse:

Num país fictício chamado Eldorado, o jornalista e poeta Paulo oscila entre diversas forças políticas em luta pelo poder. Porfírio Diaz é um líder de direita, político paternalista da capital litorânea de Eldorado. Dom Felipe Vieira é um político populista e Julio Fuentes, o dono de um império de comunicação. Em uma conversa com a militante Sara, Paulo conclui que o povo de Eldorado precisa de um líder e que Vieira tem os pré-requisitos para a missão. Grande clássico do Cinema Novo, o filme faz duras críticas à ditadura.


Elenco:

Jardel Filho - Paulo Martins
Paulo Autran - Porfirio Diaz
José Lewgoy - Felipe Vieira
Glauce Rocha - Sara
Paulo Gracindo - Don Julio Fuentes
Hugo Carvana - Alvaro
Danuza Leão - Silvia
Jofre Soares - Padre Gil
Modesto De Souza - Senator
Mário Lago - Capitão
Flávio Migliaccio
Telma Reston
José Marinho
Francisco Milani
Paulo César Peréio



O filme anterior de Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do sol, havia sido concebido e filmado ainda em 1963, antes do golpe militar que derrubou João Goulart e que pouco a pouco ia minando boa parte dos sonhos de sua geração. A conversa agora era outra. O mundo a mudar não estava escondido no interior distante, o mundo estava mudando para pior em todos os lugares, em plenas metrópoles, o mundo estava mudando bem debaixo das fuças dos idealistas que achavam que estavam mudando o mundo. Terra em Transe é sobre isso, é sobre essa paulada na cabeça que foi ver suas ilusões indo por água abaixo após a violência institucional.

Como é dito no filme, pelo seu protagonista, Paulo Martins:

"Não anuncio cantos de paz, nem me interessam as flores do estilo."

Esclarecendo depois:

"Todos somos simpáticos, desde que ninguém nos ameace"

Terra em Transe é um filme especial. Será que isso é uma obviedade? Deve ser, mas é preciso reafirmar. No início da década passada, foi contestado por um célebre dramaturgo televisivo, que repetia os mesmos argumentos de que zombava Glauber no artigo que publicamos nessa edição. Ninguém entende o filme, dizem alguns. A resposta do cineasta ponderava sobre o cinema equivalente à poesia de Rimbaud ou à pintura de Cézanne ou Van Gogh. É preciso entender tudinho?

Diz Paulo Martins no filme:

"Precisamos resistir, resistir!, e eu preciso cantar, eu preciso cantar!
Não é mais possível essa festa de medalhas..."


É um filme especial. Operístico e barroco são sempre os adjetivos que acompanham esse tipo de análise. Pois é, é isso aí. É um filme na corda bamba, é um filme desesperado e amargurado. É o triste fim de quem levou a sério a idéia de mudar as condições sociais do país.

Em Eldorado, capital de um país de mesmo nome, Paulo Martins é um poeta que trabalha como jornalista e "ghost-writer" de políticos, um sujeito que, com suas ambições poéticas, pretende conciliar a ética e a estética. Quer ser poeta, mas quer falar de temas... políticos! Não tendo espaço para isso em Eldorado, abandona sua namorada arranjada e seu protetor, o senador eleito Porfirio Diaz, e, e vai para a província de Alecrim, onde conhece Sara, descobre a pobreza de seu povo e passa a assessorar Felipe Vieira, candidato a governador. A impostura populista de Vieira logo se revela, e um golpe é tramado para lhe tirar do poder. Diante da covardia de Vieira, Paulo se desespera e prega a luta armada. Foge, e acaba sendo baleado.

O filme é contado quase todo num imenso flash-back, onde Paulo, às portas da morte, relembra toda a história. Através desse mote, de uma história relembrada por um homem agonizante, aparece uma trama que enlaça um sujeito que, a despeito de seu temperamento impetuoso e das pequenas maldades que comete, permanece ligado aos seus ideais até o fim, até o ponto em que for necessário.

Parece que todo o filme se sintetiza na percepção amarga de Sara: "A política e a poesia são demais para um só homem". Paulo Martins diz ter "A fome do absoluto", busca até o fim conciliar os extremos, e fracassa.

Dom Porfirio Diaz é um inimigo odiado e admirado, é quem perdeu todos os pudores em busca do poder pelo poder, capaz de trocar de aliados ao sabor dos ventos. Tem um discurso totalmente fascista, é talvez o mais claro vilão dos filmes de Glauber. É elite desde Pedro Álvares Cabral, e de lá não sai por fazer política com competência. Política dessas que se faz nos escritórios. Diaz tem horror do povo e das ruas. Foi radical de esquerda na juventude, e agora seu discurso é pela família e por Deus.

Felipe Vieira é o aliado-símbolo, o líder político que acaba por se mostrar frágil, covarde, populista, ineficiente. É o fascínio pelo papel desempenhado por João Goulart, o líder que não existiu. Paulo, o ideólogo de Vieira, se vê traído pelo seu patrão, o magnata das comunicações Julio Fuentes. Fuentes, que se considera um "homem de esquerda", é convencido do perigo que corre com a ascensão de projetos populistas, e acaba se unindo a Diaz e à multinacional Sprint, fabricante de armas, para impedir a vitória de Vieira na eleição presidencial que se aproxima. Diante de um acontecimento fortuito, em que Vieira vacila diante da necessidade de sacrificar um leão-de-chácara aliado (referência a Vargas e Fortunato? Ou profetização do Riocentro?), os acontecimentos se precipitam, e os militares tratam de tirar Vieira do poder. Diaz nos informa, zombeteiro, que a luta de classes existe, e pergunta a cada um da platéia, você sabe a que classe pertence?

O que é mais triste, a sordidez do projeto elitista e autoritário? Ou a fragilidade mentirosa do projeto populista? Vieira vai ao populacho, abraça todo mundo e não resolve nada, ao contrário, só faz cagadas. Já Diaz nem cogita em chegar perto do povo. (teria medo de perder o Rolex, talvez).

E o povo? O povo é representado por José Marinho, numa cena famosa e antológica, em que ele, presidente de sindicato, é instado a se manifestar, e inicia um discurso óbvio e despreparado. É interrompido por um irritado Paulo, que nos diz:

"Este é o povo: Um imbecil, um analfabeto, um despolitizado".

Não há esperança nas ações do povo. Não há esperança na fibra dos políticos honrados. Muito menos no discurso reacionário. Terra em Transe é amargurado, é um filme que termina destruído como seu protagonista. Vai até as raias da loucura por seu idealismo, e termina desiludido e abandonado, partindo numa tentativa desesperada, que nada mais seria do que o encontro com seu fim. A luta por ideais justifica a vida, e é preferível o fim da vida a continuá-la sem seus ideais. É o destino reservado aos mártires.

Talvez seja um filme ultrapassado nos dias de hoje. Alguém acha isso?

O que pode querer dizer "datado"? Sim, acho que Terra em Transe é datado, é um filme que surge de seu momento, que não poderia existir nem antes nem depois. E isso só o torna mais significativo, mas não anula qualquer uma das suas questões ou obscurece qualquer que seja das suas imensas qualidades.

Logo no início, diz um letreiro, com parte do poema de Mário Faustino que inspirou o filme:

"Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmo sangrento e a alma pura
--------------
Gladiador defunto, mas intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura)"


Agora me lembro de quando tinha catorze anos de idade.

Alguns filmes nos dão imenso prazer. Alguns outros marcam nossa memória. Uns poucos podem até ajudar a definir nossos padrões, éticos ou estéticos. Mas há os casos em que um filme balança nossa cabeça e muda o norte de nossa vida, há casos em que o impacto de uma obra pode ajudar a resolver questões definitivas para nós, pode, enfim, mexer conosco a ponto de decidirmos "o que vamos fazer na vida".

Acho que a melhor maneira de encerrar este texto é reconhecendo que é assim que me lembro de Terra em Transe.
por Daniel Caetano

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DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL – 1964


Diretor: Glauber Rocha
Roteiro: Glauber Rocha e Walter Lima Jr.
Gênero: Drama
Origem: Brasil
Ano: 1964
Música: Heitor Villa Lobos


Sinopse:

No sertão nordestino, o vaqueiro Manuel mata seu patrão e foge com a mulher, Rosa. Os dois tornam-se seguidores do líder messiânico "Santo" Sebastião, até que o jagunço Antônio das Mortes, a mando dos coronéis e da Igreja, mata o velho beato e seus fiéis. Manuel e Rosa sobrevivem e encontram o cangaceiro Corisco. Este converte Manuel ao cangaço, rebatizando-o de Satanás. Corisco é caçado e morto por Antonio das Mortes.


Elenco:

Geraldo Del Rey
Othon Bastos
Maurício do Vale
Yona Magalhães
Lídio Silva
Sônia dos Humildes




Venceu, em 1964, o Grande Prêmio no Festival de Cinema Livre da Itália e o Prêmio da Crítica no Festival Internacional de Cinema de Acapulco, além de ser um dos indicados à Palma de Ouro. O filme conta com um elenco de peso como Othon Bastos, no papel de Lampião, e Yoná Magalhães, como Maria Bonita.


"DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL"
por Hudson Nogueira

Glauber Rocha é uma página do Cinema Brasileiro pelo conjunto de sua obra e sua importância ímpar dentro do conceito de cultura nacional. É claro que o cineasta baiano não foi unanimidade perante os críticos, tanto no tempo em que realizava seus filmes quanto após sua morte no início da década de 1980. Glauber caminhou numa linha tênue entre a veneração e as críticas negativas aos seus filmes, tendo como premissa a forma hermética que o cineasta usava na construção da narrativa e da estética ao longo de sua obra. Em contrapartida, essa obra questionada que pouco animava os críticos brasileiros era reconhecida com louvor no exterior por grandes nomes do cinema mundial como Luchino Visconti, Luis Buñuel e Jean-Luc Godard, sendo que os dois últimos citados convidaram o diretor brasileiro a atuar em seus filmes, mesmo que de forma sucinta em: Simão do Deserto (1965), de Luis Buñuel, e Vento do Leste (1969), de Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin.

Após um curta experimental, O Pátio (1959), dirigiu seu primeiro longa-metragem, Barravento (1961), mas foi com Deus e o Diabo na Terra do Sol que Glauber atingiu o ápice do conjunto de sua obra. O filme produzido em 1964, antes do golpe militar que mudaria a história do país, é uma compilação de diversos elementos culturais que são fundamentais na compreensão de parte do processo histórico brasileiro retratado no filme.

O filme começa com um plano panorâmico de abertura (plano este que viria a ser utilizado novamente por Glauber em Terra em Transe, de 1967) enfocando parte do sertão de Monte Santo, ao som da música de Villa Lobos, um elemento de formação da identidade nacional, mostrando a admiração do diretor pelo Modernismo da década de 20. O cenário natural do filme é o principal personagem da trama, o sertão – porém, uma mistura de sertões presentes na literatura brasileira de Euclides da Cunha (Os Sertões), José Lins do Rêgo (Menino de Engenho) e Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas) e a tradição do Cordel.

A organização linear do filme se dá em torno do casal de camponeses, Manuel (Geraldo Del Rey) e Rosa (Yoná Magalhães), versando sobre sua condição social, de trabalho, suas relações com os donos do poder no ambiente sertanejo, por meio da ordem vigente do sertão: a rebeldia messiânica e a violência do cangaço. Após citar o cangaço, podemos localizar o tempo em que ocorre a trama, o Estado Novo de Getúlio Vargas - a república da desgraça, um Brasil esquecido no meio do sertão, assim como é abordado nas literárias dos autores citados anteriormente.

A primeira ruptura do filme ocorre quando o vaqueiro Manuel é logrado pelo Coronel Morais na partilha do gado, o que leva o vaqueiro a questionar as relações de poder privado e, consequentemente, ocasiona a revolta, matando o Coronel e sendo perseguido pelos jagunços em um tiroteio na frente de sua casa, onde sua mãe é vitimada pelos tiros dos perseguidores. Manuel então passa a ver esse fato como um sinal divino e percebe a sua condição de perseguido diante dos poderosos, aderindo ao santo milagreiro, Sebastião (Lídio Silva). Nesse momento, entra na trama um elemento fundamental para compreendermos o filme e a historicidade dele - o messianismo - algo até então corriqueiro no sertão, considerando as figuras de Antônio Conselheiro a Padre Cícero.

O destino de Manuel é entregue à aceitação e fidelidade ao santo milagreiro, exibindo devoção no cumprimento dos rituais de purificação da alma, apesar da oposição de Rosa. É válido ressaltar que a condição de beato a queal adere por Manuel e que é questionada por Rosa é fruto de um niilismo proporcionado pelo meio em que vivem: uma terra sem lei, ou pior, com lei própria, a lei dos coronéis, a lei dos donos do poder. Contudo, a dialética do discurso marxista na narrativa de Glauber é posta em conflito na frase de Rosa:

O povo não presta e não vale nada!”

O contraponto é a frase de Corisco:

Mais forte são os poderes do povo”.

Os personagens corrompidos pelo meio e pelo messianismo incomodam o outro poder até então ausente no filme: A Igreja, que, como forma de repressão para neutralizar a adesão a Sebastião, procurou em Antônio das Mortes, o “matador de cangaceiros”, a solução.

A crença em um imaginário irreal proposto por Sebastião (O Sertão vai virar Mar e o Mar vai virar Sertão) e o sacrifício do filho de Rosa e Manuel são provas da cegueira pela falsa fé, criada pela falta de perspectiva daquele povo sofredor que andava de forma permanente de mãos dadas com a desgraça que remete à lembrança de Canudos. A religião contra o poder militar, a repressão no filme é retratada em Antônio das Mortes (Maurício do Valle), o algoz dos cangaceiros. Após o massacre dos beatos de Sebastião por Antônio das Mortes, Glauber remete ao sertão brasileiro um momento de western de John Ford, com a relação entre brancos versus indígenas. Apesar de ser algo tão presente na filmografia de Ford, o diretor baiano não tinha a pretensão de copiar o cineasta estadunidense, trata-se apenas de uma pequena referência sobre as relações humanas e de poder.


A cultura do cordel se apresenta na canção “Rosa e Manuel nas Veredas do Sertão”, canção composta por Glauber, como uma introdução à fase final do filme, em que são inseridos personagens clássicos da história do cangaço, Corisco e Dadá, após a morte dos ícones de cangaço: Lampião e Maria Bonita, capturados e assassinados pelas forças do Estado Novo no Sergipe. Manuel e Rosa são guiados por Cego Júlio ao encontro de Corisco (Othon Bastos), onde podemos notar como a inserção do cangaço estabelece outra forma de poder, a lei da bala em contraponto à lei do governo.

O monólogo de Corisco frente à câmera é a síntese do sentimento de resistência à repressão, sem medo, com ideologia em que as incorporações do mito e da cultura popular estão presentes na fala do cangaceiro para o expectador. Manuel adere ao cangaço como uma forma de vingar Sebastião. Ainda cego pelas promessas do beato, é rebatizado por Corisco como “Satanás”. Contudo, a fidelidade a Sebastião gera discussões ideológicas entre Corisco e Manuel, no que diz respeito à significação da violência e da reza na luta para mudar o destino em torno da grandeza do santo contrapostos à grandeza de Lampião defendida por Corisco.

Na sequência final, o bando é alcançado pelo algoz Antônio das Mortes, ao som das canções “Se entrega, Corisco” e:

Farreia, farreia povo
Farreia até o sol raiá
Mataram Corisco
Balearam Dadá
”.

Quando o matador de cangaceiro acerta um tiro em Dadá e rende Corisco, dando-lhe a opção de se entregar, logo negada pelo cangaceiro, o algoz atira em Corisco sob a observação de Rosa e a fuga de Manuel, a fuga para o mar, o mar prometido por Sebastião.

Os elementos históricos e culturais se amalgamam por meio das conjecturas propostas na narrativa que Glauber construiu, resultando numa obra essencial para a filmografia brasileira, para que possamos compreender melhor as relações de poder e religião de um Brasil esquecido, à margem do desenvolvimento da sociedade urbana que eclodia na época. É válido citar mais uma vez o ano de produção do filme, 1964, meses antes da tragédia imposta à democracia vigente na nação. Após o golpe, o filme foi apreendido pelos militares e levado para o departamento de censura. Um dos censores, logo depois de assistir ao filme, emocionado, ordenava a liberação da fita definindo-a como “um filme de macho, feito por um cabra macho”. A frase em questão foi proferida pelo militar que viria a ser o último dos algozes da democracia no país, o General João Baptista Figueiredo.

Tendo como premissas a cultura do Cordel, a religiosidade, a terra que não é de Deus nem do Diabo, as relações de poder, a incorporação da cultura popular pelo mito, o mar como utopia do sertão, tudo isto resulta num trabalho de construção e montagem do autor que acaba por provar que, assim como a terra, o cinema não é de Deus nem do Diabo: o cinema é do homem - e o homem que realizou esse filme foi Glauber Rocha.


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GAROTAS DO ABC – 2003


Diretor: Carlos Reichenbach
Roteiro: Carlos Reichenbach
Gênero: Drama
Origem: Brasil
Ano: 2003


Sinopse:

No ABC de São Paulo, região de fábricas têxteis e metalúrgicas, um grupo de operárias vive seu cotidiano de intenso trabalho, sonhos e ilusões. Entre elas, destaca-se Aurélia, operária negra, bela e atrevida, que adora homens fortes e musculosos. Ela namora Fábio, jovem enturmado em um grupo neonazista, liderado pelo jovem advogado Salesiano de Carvalho.


Elenco:

Fernando Pavão - Fernando Tavares
Ênio Gonçalves - Nélson Torres
Selton Mello - Salesiano de Carvalho
Antônio Pitanga - Aurélio
Michelle Valle - Aurélia
Vanessa Alves - Antuérpia
Natália Lorda - Paula Nélson
Luciele Di Camargo
Vanessa Goulart - Marcinha
Fernanda Carvalho Leite - Lucineide
Rocco Pitanga - Adílson
Dionísio Neto - André Luiz Oliveira
Eduardo Sofiatti - Nicanor
Milhem Cortaz - Alemão

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FILME DEMÊNCIA - 1986


Diretor: Carlos Reichenbach
Gênero: Drama
Origem: Brasil
Ano: 1986


Sinopse:

O roteiro de Reichenbach e do jornalista Inácio Araújo transpõe para o Brasil moderno o mito de Fausto, na história de um industrial de cigarros que está falido e é colocado para fora de casa pela mulher. Assim, o homem se tranca em seu mundo e passa a ter visões alucinantes. Como em Fausto, sua missão agora é encontrar seu correspondente Mefisto - que aparece de diferentes formas, seja como traficante ou como uma velhinha.


Elenco:

Ênio Gonçalves
Emílio Di Biasi
Imara Reis
Fernando Benini
Rosa Maria Pestana
Orlando Parolini
Alvamar Taddei
Benjamin Cattan

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FALSA LOURA – 2008


Diretor: Carlos Reichenbach
Roteiro: Carlos Reichenbach
Gênero: Drama
Origem: Brasil
Ano: 2008


Sinopse:

Silmara é uma bela operária que sustenta seu pai, Antero, um ex-presidiário que foi deformado pelo fogo. Ela tenta a todo custo manter um relacionamento amigável com ele e com seu irmão caçula, Tê , ao mesmo tempo em que mantém um relacionamento ambíguo com a professora de dança Regina. Na fábrica em que trabalha Silmara é incentivada a ajudar Briducha, uma mulher tímida e solitária. As duas e Regina vão ao show do grupo Bruno e os Andrés, onde Silmara conhece e se envolve com Bruno de André, ídolo da banda. Logo Silmara se torna o sonho de suas amigas, por representar a chance de uma rápida ascensão social.


Elenco:

Rosanne Mulholland
Cauã Reymond
Maurício Mattar
Djin Sganzerla
João Bourbonnais
Léo Aquilla
Suzana Alves
Jiddu Pinheiro
Maeve Jinkings
Vanessa Prieto
Luciana Brites

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DOIS CÓRREGOS – 1999


Diretor: Carlos Reichenbach
Roteiro:Carlos Reichenbach
Gênero: Drama
Origem: Brasil
Ano: 1999


Sinopse:

Em meio à repressão imposta pela ditadura militar vivem Ana Paula e Lydia, duas adolescentes burguesas e inexperientes que passam uma temporada em uma fazenda. Lá elas conhecem Tereza e convivem por um fim de semana prolongado com o tio de uma delas, Hermes, um homem misterioso que está clandestino no país.


Elenco:

Carlos Alberto Riccelli - Hermes
Beth Goulart - Ana Paula - adulta
Ingra Liberato - Tereza
Vanessa Goulart - Ana Paula - jovem
Luciana Brasil - Lydia
Kaio César - Sargento Percival
Luiz Damasceno - Dr. Armando Sumaqueiro
Thomaz Jorge - Pimpolho
Sérgio Ferrara - Oficial de justiça
Antoune Nakhle - Cláudio
Cristina Cavalcanti - Tânia
Zé da Ilha - José

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ALMA CORSÁRIA – 1993


Diretor: Carlos Reichenbach
Gênero: Drama
Origem: Brasil
Ano: 1993


Sinopse:

Dois amigos lançam livro de poesia a quatro mãos. Para espanto do editor, a dupla convida para a noite de autógrafos tipos estranhos, como um suicida salvo da morte por um deles. A irreverente festa leva às lembranças de como os amigos se conheceram, nos anos 1950.


Elenco:

Bertrand Duarte
Jandir Ferrari
Andrea Richa
Flor
Mariana de Moraes
Jorge Fernando
Emílio Di Biasi
Abrahão Farc
Roberto Miranda
Paulo Marrafão
David Ypond
Amazyles de Almeida
Rosana Seligmann
André Messias

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ASAS DO DESEJO - 1987


O filme gira em torno de dois anjos que pairam sobre a Berlim do pós-guerra e ouvem os pensamentos e angústias dos seus moradores. Um dos anjos se apaixona por uma trapezista de circo e resolve tornar-se um ser humano para viver o seu amor e experimentar sensações humanas.


Se os anjos existem de verdade, como serão? Muitos artistas – alguns talentosos, outros nem tanto – já imaginaram a resposta. O cineasta alemão Wim Wenders talvez tenha sido um dos mais criativos a fazê-lo. Wenders usou os anjos como metáfora para tecer um poético e sensível estudo sobre a condição humana em “Asas do Desejo” (Der Himmel über Berlin, Alemanha, 1988).

Não é segredo para ninguém que “Asas do Desejo” serviu como inspiração para a comédia romântica “Cidade dos Anjos”, com Nicolas Cage e Meg Ryan. Quem assistiu ao longa-metragem norte-americano já tem uma boa idéia do enredo do filme de Wenders, uma vez que o filme recicla grande parte das idéias do alemão, submetendo-as a à lógica de Hollywood: um anjo se apaixona por uma mulher e decide abandonar a imortalidade para poder viver essa paixão, uma emoção fundamentalmente humana.

Esse resumo serve para descrever, em linhas gerais, os dois filmes. Mas eles não poderiam ser mais diferentes. “Cidade dos Anjos” se concentra apenas no amor aparentemente impossível de um anjo por uma mortal. A trajetória do anjo de Wenders é parecida, mas para o cineasta alemão não é o objetivo final – a conquista – que importa; o foco do filme está na transformação. O amor é a epítome da experiência humana, e Wenders sabe disso, mas não é tudo o que importa. Beber uma xícara de café, esfregar as mãos uma na outra para espantar o frio, fumar um cigarro olhando para a noite, todas podem ser experiências cotidianas tão fascinantes quanto um beijo, para alguém que começa a reconhecer sua própria natureza humana.


“Asas do Desejo” é um filme contemplativo, que observa e comenta sobre a vida. É um filme sobre a passagem do tempo, sobre a consciência a respeito de si; em última análise, filme sobre a descoberta da própria identidade. Em vários momentos, Wim Wenders faz as perguntas que motivam a reflexão provocada pelo filme: “por que eu sou eu e não você? Por que estou aqui e não ali? Onde termina o tempo e onde começa o espaço?”.

Simples, porém abstratp. O próprio Wenders explica, recitando um mantra infantil que seus anjos repetem várias vezes, que essas são as primeiras questões feitas por uma criança, quando ela começa a tomar consciência de si mesma. São, portanto, as questões fundamentais que definem a identidade de qualquer indivíduo. Perguntas aparentemente bobas, mas que nenhum filósofo conseguiu responder. “Asas do Desejo” é pura metafísica e tem uma face espiritual evidente, embora trate fundamentalmente da experiência urbana (e, portanto, humana). Talevz seja por isso que tanta gente acha o filme chato ou incompreensível; ele não procura respostas, apenas reflete sobre as perguntas.

Wim Wenders fez um filme verborrágico mas, contraditoriamente, sem diálogos. A maior parte do filme é construída de monólogos interiores, de pensamento. Os anjos passeiam entre os mortais, ouvindo seus pensamentos como se girassem o dial de um aparelho de rádio, saltando entre diversas estações. De vez em quando, eles encostam as mãos nos ombros das pessoas mais angustiadas e tentam transmitir um sentimento de esperança, que pode ser de grande valia – ou não. Isso é tudo o que lhes é permitido. É uma vida 100% passiva.

Os anjos de Wenders parecem detetives de um filme noir: grandes sobretudos negros, rostos sérios, mãos nos bolsos. Eles vivem em bibliotecas e se empoleiram em pontos altos das cidades. O filme se passa em Berlim, a cidade perfeita no momento perfeito, pois o filme se passa poucos meses antes da queda do muro que a dividia. A cidade é o campo de batalha que expõe a visão de Wenders sobre a experiência urbana contemporânea, marcada pelo isolamento cada vez maior dos invidíduos. “Em Berlim, não é possível se perder, pois qualquer caminho vai dar no Muro”, reflete um anjo. Numa metáfora brilhante, Wenders afirma que cada indivíduo na Alemanha é uma espécie de mini-Estado, com leis e regras próprias. “Londres, Tóquio, Kioto, Nova York”, pensa outro personagem, dentro de um avião. Berlim é um microcosmo do mundo.

O filme vislumbra esse aspecto solitário da existência humana através dos olhos impassíveis dos anjos. Eles são invisíveis aos humanos, com exceção das crianças; os pequenos são os únicos seres que olham diretamente para os anjos, embora o filme jamais explicite se as crianças são realmente capazes de vê-los. Nesse sentido, Wenders opera uma metáfora fantástica, associando os anjos às crianças. Eles se identificam com elas; são seres puros, inocentes, que começam a descobrir sua identidade. Os adultos, mergulhados no turbilhão de problemas do cotidiano, já perderam de vista as três questões fundamentais. É quase um ensinamento budista.

A maneira que Wenders encontrou para realçar a passividade dos anjos foi filmando “Asas do Desejo” sempre da perspectiva desses seres, retirando a cor quase completamente. Os anjos vêem um mundo monocromático, sem emoções – sem cores. Quase 80% do filme são em preto-e-branco, com a exceção da parte final, quando o protagonista, Damiel (Bruno Ganz), toma a decisão crucial de existir. Os poucos planos coloridos no meio do filme sugerem que o processo de conversão de Damiel, de anjo em humano, tornou-se irremediável em determinado momento. Ao se apaixonar, a vida começou a ficar colorida para ele. Quando isso finalmente ocorre, “Asas do Desejo” ganha cores explosivas.

As atuações são espontâneas, mas cuidadosas. Ganz tem o maior destaque por conseguir imprimir um ar altivo e melancólico enquanto anjo. A interpretação muda radicalmente quando ele desce à Terra. Não são apenas as roupas ou o penteado; algo mais sutil lhe empresta a humanidade necessária antes do seu encontro com a trapezista Marion (Solveig Dommartin). O modo como ele se entrega aos pequenos prazeres do cotidiano, o sorriso bobo, a maneira de caminhar, o olhar perplexo; de repente, Damiel é como uma criança crescida. Descobre o que é sentir, o que é ser, efetivamente, humano.

A dicotomia crianças X anjos torna-se evidente a partir da atuação de Ganz. Combinada com a sutileza da direção de Wenders, a performance do ator dá agilidade ao filme, reforçando o sentido da lentidão melancólica dos primeiros 90 minutos. A partir desse momento, o filme ganha um senso de humor refinado, encarnado perfeitamente pelo personagem de Peter Falk (quando o ator aparece, interpretando a ele mesmo no personagem mais fascinante e enigmático do filme, o filme ganha ironia e diálogos deliciosos).

Isso tudo é prova da maturidade de um cineasta no pleno domínio do seu talento. Wim Wenders já havia ganho Cannes e feito grandes filmes, mas “Asas do Desejo” é tido por muitos críticos como a sua obra-prima, e um dos mais importantes filmes europeus dos últimos 20 anos. É fácil perceber o porquê.

“Asas do Desejo” conserva a gravidade e a capacidade de penetrar na psiquê humana, algo que os grandes cineastas europeus das décadas de 1960 e 1970 faziam com propriedade. Wenders se aproxima especialmente do italiano Michelangelo Antonioni, com suas longas caminhadas silenciosas e a temática insistente da incomunicabilidade. O diretor alemão parece um pouco mais otimista. E esse otimismo se revela profético, na medida que o muro de Berlim, símbolo preferido de Wenders para a solidão do homem de hoje, cairia pouco depois.

Vejamos: “Asas do Desejo” tem falas em alemão, inglês, francês, japonês e espanhol. O músico australiano Nick Cave aparece em três canções ao vivo; ele coroa uma trilha sonora dissonante e eclética, que vai dos corais religiosos ao pop furioso para sublinhar a dificílima e sublime mistura de espiritualidade com globalização tecida por Wim Wenders. Obra-prima. Por:Rodrigo Carreiro




ELENCO:

Bruno Ganz
Solveig Dommartin
Otto Sander
Peter Falk


Título Original: Der Himmel über Berlin
Direção: Wim Wenders
Roteiro: Peter Handke e Richard Reitinger
Gênero: Drama / Fantasia / Romance
Origem: Alemanha
Ano De Lançamento: 1987
Música: Jürgen Knieper
Fotografia: Henri Alekan

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CÉU E INFERNO - 1963


Em 1963, Céu e Inferno, um misto de policial e filme social, envolvia um crime de sequestro em que o raptor desejava arruinar o homem rico por invejar-lhe a alta posição.

A história em primeiro plano oculta sentidos mais profundos, com digressões sobre o capitalismo e a sua (falta de) moralidade. Embora menos pessimista que o noir Cão Danado, Céu e Inferno não renuncia às metáforas visuais, não simplifica o drama ético do protagonista e escapa pela tangente de cair na pieguice, ao apresentar o caráter multifacetado e árduo de muitas questões morais.

Mais uma vez com Mifune no elenco, um confiante Kurosawa não poupa sofisticação na construção audiovisual, numa narrativa policialesca repleta de sutilezas e detalhes técnicos, em que forma e conteúdo estimulam-se entre si.

A trilha sonora é uma atração à parte. Num determinado momento, crucial para a história, a música de fundo simplesmente é "It's Now or Never". Genial.

Mas nada nos prepara para o verdadeiro tour de force que é a travessia empreendida pelo inferno: o submundo, as boates, as zonas, nada é poupado na perseguição que a polícia faz junto ao seqüestrador após este ter sua identidade desmascarada.



Título Original: Tengoku to jigoku
Título em inglês: High and Low
Direção: Akira Kurosawa
Produção: Ryuzo Kikushima, Akira Kurosawa, Tomoyuki Tanaka
Roteiro: Hideo Oguni, Ryûzô Kikushima, Eijirô Hisaita, Akira Kurosawa, baseado na novela de Ed McBain (Evan Hunter) "Kingu no minoshirokin"
Gênero: Policial/Drama/Suspense
Origem: Japão
Ano: 1963
Música: Masaru Satô
Fotografia: Asakazu Nakai, Takao Saitô
http://www.imdb.com/title/tt0057565/ - 8.2/10


Sinopse:

O filme conta a história de um executivo de uma fábrica de sapatos, Kingo Gondo, que está numa situação crítica. Ele está para investir uma grande verba em seus negócios quando descobre que seu filho foi raptado. O sequestrador exige uma quantia exorbitante como resgate, e pagá-lo levará Gondo à falência, porém acontece algo inesperado.

Em Céu e Inferno, baseado em uma novela policial norte-americana de Ed McBain, Kurosawa analisa o mundo capitalista japonês e as diferenças sociais, mostrando os contrastes entre a burguesia e a miséria. Foi indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza em 1963 e ao Prêmio Samuel Goldwyn no Globo de Ouro em 1964.


Elenco:

Toshirô Mifune - Kingo Gondo
Tatsuya Nakadai - Detetive-chefe Tokura
Tsutomu Yamazaki - Ginjirô Takeuchi
Kyôko Kagawa - Reiko Gondo
Tatsuya Mihashi - Kawanishi, secretário/assistente do Gondo
Isao Kimura - Detetive Arai
Kenjiro Ishiyama - Detetive-chefe 'Bos'n' Taguchi
Takeshi Katô - Detetive Nakao
Takashi Shimura - Chefe da seção de investigações
Jun Tazaki - Kamiya, Diretor de Publicidade da National Shoes
Nobuo Nakamura - Ishimaru, Diretor de Design da National Shoes
Yûnosuke Itô - Baba, Diretor Executivo da National Shoes
Yutaka Sada - Aoki, o motorista
Masahiko Shimazu - Shinichi Aoki, filho do motorista
Toshio Egi - Jun Gondo, filho do Gondo



Eis mais um (como todos) Kurosawa maior, com seqüências antológicas como o pagamento do resgate no trem bala em movimento, cenas maravilhosas como o balanço das providências na grande reunião dos especialistas da Polícia, a compra de heroína no dancing bar, entre outras preciosidades. Filme atualíssimo que aborda a nação que tenta ficar firme para enfrentar o esgarçamento social, a divisão das personalidades em conflito permanente, o caos urbano provocado pela sociedade de classes. – Nei Duclós, Consciência.org


Céu e Inferno é um baita filme.
A primeira parte da história é ambientada no universo do pai do sequestrado (Mifune), rico empresário, que mora numa casa ampla, localizada sobre uma montanha (céu).
A segunda, Kurosawa desce sua câmera para o submundo, para as ruas onde a vida segue como é na realidade, e onde vamos conhecer o sequestrador (inferno).
São quase dois filmes em um. Há uma longa sequência de perseguição, em que os policiais estão dentro de um trem e o sequestrador combina de deixar um recado ou alguma pista sobre as condições do garoto sequestrado. A cena é espetacularmente bem filmada! Céu e Inferno é imperdível mesmo. – Régis, leitor

O filme é excelente, uma obra-prima. Além de ser a melhor história de investigação que já vi.
A história é simples. A primeira parte acontece em uma casa bem luxuosa, que fica no alto de um morro (Céu) e a segunda parte no meio da cidade (Inferno). Gondo está feliz porque conseguiu arrumar uma maneira de ficar com a maior parte das ações da empresa onde trabalha. Tudo parecia perfeito mas ele recebe um telefonema. Um homem diz que sequestrou o seu filho, porem minutos depois seu filho retorna, e na verdade, quem foi sequestrado foi um amigo dele, filho do seu chofer. De qualquer forma o sequestrador obriga Gondo a pagar o resgate. Se Gondo pagar está falido. Se não pagar o garoto está morto.
Depois de refletir bastante, Gondo resolve obedecer ao sequestrador e dá o dinheiro. A partir dai começa uma incrivel investigação para descobrir quem é o sequestrador. Sabe aquele tipo de filme que você não consegue piscar o olho? É exatamente isso que acontece. – Bruno W., leitor



Céu e Inferno é um filme sobre cinema: a investigação de um crime de seqüestro é a leitura de imagens e sons. As pistas audiovisuais fecham o cerco sobre o criminoso, que consegue o resgate porque enxerga mais: pelo telescópio, segue todos os passos da sua vítima, o executivo que exibe poder e fortuna na grande janela envidraçada da sua mansão, a cavaleiro sobre a favela. Mas o olhar individual do sequestrador não vence o olhar coletivo, da sociedade e instituições mobilizadas para descobri-lo. É desmascarado por meio dos ruídos que deixa gravados nos seus telefonemas de chantagem, da voz que denuncia sua pouca idade, das opções que acabam entregando a localização do seu esconderijo. Da mesma forma que a polícia no encalço do bandido, o espectador também precisa palmilhar essa busca da agulha no palheiro vendo o que Kurosawa tece com maestria.
(...) Sabe aquele gesto típico japonês de pessoas que se curvam diante dos outros, em sinal de respeito? É o que todos devem fazer em direção a Kurosawa. Assim que devemos nos comportar diante do Mestre. – Nei Duclós, Consciência.org



Kurosawa sempre foi acusado, no Japão, de ser ‘ocidentalizado’. Era outra época, o mundo ainda não estava globalizado e Kurosawa adaptava Shakespeare, Dostoievski e Gorki. Acho que só quando ele morreu os críticos se deram conta, nos necrológios, de que Kurosawa havia sido o grande mestre do paradoxo e do movimento. Em Céu e Inferno, ele se baseou num relato policial do americano Ed McBain, sobre empresário que pensa que o filho foi seqüestrado, mas foi o filho do seu motorista. E, agora, ele paga o resgate? Se pagar, estará arruinado; se não pagar, como seguirá vivendo, já que é um homem ético? Como em Yojimbo e Sanjuro, Kurosawa opõe Mifune e Nakadai, dois monstros da arte da representação.
Céu e Inferno recebeu em inglês o título de High and Low. Coppola deve ter visto Céu e Inferno antes de fazer O Selvagem da Motocicleta. Scorsese é louco pelo filme. Anos atrás, chegou a pensar num remake. Walter Salles foi cogitado para a direção. Com todo respeito por Walter, ainda bem que ele não foi adiante. Seria difícil conseguir fazer algo melhor do que Kurosawa, com sua riqueza de mise-en-scène conseguiu naquele thriller 100% cult. - Luiz Carlos Merten, Estadão



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EUPHORIA - 2006


"um poema audiovisual que tem como protagonista as estepes siberianas"

Euphoria trata do adultério numa história que se adivinha trágica desde o seu início. História nefasta, simples e poética.

Um homem que se apaixona por uma mulher casada com um ex-alcoólatra, e um acidente com a filha do casal estremece a relação conjugal. Um vilarejo inóspito (razão para o diretor usar e abusar da natureza), sem telefone, casas remendadas, horas de distancia da civilização. Vidas sem perspectiva, quase impossível imaginar como se vive naquelas condições.

O filme é riquíssimo em detalhes fazendo da história uma alegoria da necessidade de atender ao sentimento de euforia que às vezes nos toma para cometer atos impensados. Pode, quem sabe, ser resumido metaforicamente em sua primeira cena, antes dos 3 minutos.

Euphoria é um filme muito expressivo do ponto de vista cinematográfico. Com sua história simples, manifesta-se através de belíssimas tomadas e da utilização de elementos simbólicos da natureza, onde a combinação de lindas paisagens e música constante e sublime se destaca. A mise-en-scène de Vyrypayev e a cinematografia de Andrey Naidenov são de uma beleza indescritível. Visualmente o filme é arrebatador, belo e magnífico com todos os planos e os travellings que o russo cria. Sensorial acima de tudo.

Uma obra com tanto de deslumbrante quanto de surpreendente. Uma experiência lírica, trágica e absolutamente fascinante.


Título Original: Eyforiya
Título em inglês: Euphoria
Direção: Ivan Vyrypayev
Produção: Giya Lordkipanidze, Aleksandr Shein
Roteiro: Ivan Vyrypayev
Gênero: Drama/Romance
Origem: Rússia
Ano: 2006
Música: Aidar Gainullin
Fotografia: Andrei Naidenov
http://www.imdb.com/title/tt0847877/ - 6.7/10

Sinopse:

Em alguma região inóspita da Rússia, Vera e Pasha trocam olhares em uma festa de casamento. Vera é casada e tem uma filha pequena, o que não impede Pasha de procurá-la para esclarecer por qual motivo trocaram olhares naquele dia.

Um dos indicados para o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2006, Euphoria, primeiro trabalho de Ivan Vyrypayev para o cinema, acabou recebendo o “Little Golden Lion”. Vyrypayev, bem conhecido como diretor teatral, é autor da peça “Oxygen”, encenada em mais de 20 países.


Elenco:

Polina Agureyeva - Vera
Maksim Ushakov - Pasha
Mikhail Okunev - Valeri
Yaroslavna Serova - Masha
Vitali Romanyuk – menino da vizinhança
Vyacheslav Kokorin - Mitrich
Zoya Zadorozhnaya - Grandma Nadya
Maksim Litovchenko - Andryukha
Madlen Dzhabrailova - Mida
Evgeniya Dmitrieva - Galya
Olga Balandina - Lenka
Tatyana Ufimtseva - Lyuba
Aleksandr Suchkov - Grigori
Yegor Golovenkin - Sanya
Aleksandr Shein - Mishka


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por Valter A. Rodrigues em julho 2010 - usinagrupodetudos

ISSO QUE ME OLHA

[...] a gente não gostava de explicar as imagens porque explicar afasta as falas da imaginação (Manoel de Barros)

Um

Um homem procura uma mulher pelas estepes siberianas, recusando todas as recomendações de seu amigo quanto ao risco de sua empreitada. Sim, a mulher é casada, sim, tem uma filha, sim, sim, o marido é ciumento, esse encontro que ele busca, que o obceca, pode matá-lo. Mas não há apelo à razão que possa deslocá-lo de seu movimento e sua fissura. É preciso, é urgente falar com ela. Sua aflição o arrasta, carrega o que quer que encontre em seu caminho, as dores, as ânsias, os olhos, ah, sim, todos os olhos que buscam capturá-lo, pará-lo por um instante que seja, reconhecê-lo no que o move.
Seu movimento, que ignora qualquer barreira, encontra outros movimentos, outras ânsias, outras perambulações. Movimentos que entretanto não lhe dão continência. A mulher, um ponto vermelho na paisagem dourada, um ponto que o ignora e que ele busca, está lá, não exatamente à espera, mas visível sob a luz intensa que a faz emergir única, singular, como pólo irresistível de atração. O que os separa, uma brecha, uma fissura no terreno, marcando o lugar de onde ele fala, interpela, demanda, e o da mulher e a filha que ela chama, sustentando-se numa quase indiferença que o incita, que o provoca. Um corpo que existe à sua revelia, embora só tenha existência porque, de seu lugar, de seu desejo, ele o olha e o interpela. E esta é a questão que ele lança, insistente: estivemos juntos numa festa, lembra-se?, e você me olhou. E agora, o que fazer com isso? O que fazer disso, desse acontecimento singular, desse encontro de olhares? O que fazer dessa captura? A pergunta ansiosa do homem encontra a plácida resposta da mulher que ao mesmo tempo o evita e o atrai: não sei...

Dois

A escola descobre o cinema. Essa descoberta assume várias formas. A mais comum e prosaica é o uso do cinema como dispositivo temático. Exibe-se um filme como suporte para algo que se pretende apresentar aos alunos. São abundantes hoje as indicações de filmes para se trabalhar isto ou aquilo a partir de seu conteúdo. Trabalha-se, assim, saúde, história, geografia, ecologia, ética, relações humanas com o recurso aos exemplos. Este é um uso moral do cinema, pois ele supõe sempre a existência de um modelo, de uma referência pré-dada em relação ao qual algum ajuste se propõe, tendo como resultado esperado e final uma compreensão do tema proposto. O filme como narrativa, como texto, está em segundo plano ou nem sequer é considerado.

Três

Todos os filmes são histórias de amor, diz Wim Wenders em O estado das coisas. E a relação primeira com o cinema é de paixão. O encontro com a tela e suas imagens dificilmente é significável senão como encantamento. Não responde às necessidades básicas da vida, não é essencial à sobrevivência, pode ser considerado dispensável ao cotidiano dos homens... Entretanto, encontrá-la, ser tocado por suas imagens, por esse tempo que dura, pelo movimento em transformação que apresenta nos coloca na condição do homem que busca a mulher nas estepes siberianas: você me olhou, e agora, o que fazer com isso? O que fazer com essa perturbação do corpo, com essa desordem sensório-motora, com essa abundância de perceptos e de afectos que o afetam? E não se trata, nessa pergunta, de compreender nem de explicar, mas sim de saber como dispor-se ao encontro com seus ritmos, suas velocidades, suas variedades, seus fluxos, pois é na afetação que se produz nesse encontro que o corpo, tomado por essas forças que lhe chegam sem que delas tenha controle, é forçado a pensar. Um pensar que só é possível no próprio afetar-se, no habitar a diferença que se produz nesse encontro corpo-imagens. Pois a força de um filme não está na tela nem no olho de quem o vê; está no entre.

Zero

No encontro, a educação é do olhar; no encontro, o que pulsa é a possibilidade de pensar; no encontro, o que o sustenta é uma ética. Não se trata de “qual cinema” colocar na escola, mas “como” colocar o cinema na escola.
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A referência, aqui, é ao filme Euphoria, de Ivan Vyrypayev. Produção russa de 2006, o filme é um poema audiovisual que tem como protagonista as estepes siberianas. Um homem e uma mulher saem em louca corrida pelas estepes, movidos por uma urgência que não podem nomear.


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